quinta-feira, 15 de março de 2012

Observadora.

Suicídio é tão um ato de egoísmo quanto qualquer outro. Não está só se privando das oportunidades que o mundo dará, como também privando o mundo do que você pode fazer por ele. Você sempre poderá fazer algo. E não quero ser motivacional, nem auto-ajuda, odeio texto assim. Estou apenas aqui, assistindo enquanto você prepara sua heroína, escolhe sua arma e dando minha opinião sobre o assunto. Eu não consigo calar a boca, sempre darei minha opinião.
Você pode ser o babaca que for, ter vendido sua mãe por drogas, além de egoísmo, é covardia. Está fugindo da batalha, cara. Quer dizer que além de babaca você é fraco? Que péssimo jeito de sair de cena. Com tantas formas que nosso corpo frágil pode encontrar de morrer... você se mata? É também desperdício.
Digo tudo isso em voz tranquila, não te conheço como seria apropriado conhecer, já que verei você morrer. As drogas começam a invadir seu corpo, como têm feito por tantos anos, mas dessa vez você ultrapassará seu limite, deixará que elas o tomem por completo. O que tem a perder a uma altura dessas, né? Suspiro, ainda não vale a pena. A espingarda repousa na cômoda, carregada. Onde você arranjou uma dessas?
Minha vida também está uma merda, cara. Eu já fui feliz. Sem ilusão alguma, totalmente livre e feliz. E perdi tudo que podia ter uma migalha desta felicidade. Arrancaram-me os sentidos da vida. Os reais sentidos.
"Ser feliz é ser iludido." Disse-me um alguém certa vez.
Não. Ele está enganado. Devia conversar mais com ele. Depois de apenas duas conversas longas (e apenas duas conversas, de qualquer forma), metade dos meus textos trouxeram uma frase dele. Não que ele seja um sábio. Não é. Só mais um rapaz que a vida porrou. Acho que ele já teve muito tempo para pensar nessas coisas.
Voltemos a sua morte. Engraçado como você não está chorando. Sempre imaginei suicidas chorando compulsivamente antes de morrer. Tolice a minha. Quero que saiba, eu sei que você não quer atenção, não estaria aqui para desfrutá-la, mesmo.
Você ri. Atenção... A única coisa de desejara não ter nos últimos anos.
Sei que é pessoal, sei que é apenas uma fuga, antes de tudo, de demônios internos que perseguem a você, somente a você.
Mas a sua morte não ganhará essa visão, alguém se culpará, outros ainda acusarão. O pior será você assistir isto tudo sem poder explicar que o culpado é você.
Talvez eles não entendessem, mesmo que explicasse.
Eu entendo que pense que o mundo está perdido, mas preciso que entenda que não pode se dar por perdido com ele.
Você, sua música, seus ideais, uma guitarra contra o mundo. Não quer mesmo comprar esta briga? Seria divertido.
Você pode fugir, anda, eu te ajudo a arrumar a mala. Fugir é tão egoísta quando suicidar-se, mas prefiro que fuja, é menos definitivo. E creio que um dia, com os pés cansados de correr, você terá uma espécie de revelação e decidirá voltar. Nem que seja apenas para testemunhar como a cidade piorou.
Você balança a cabeça, negativamente.
- Fugir deixa todos que precisam de mim desamparados. E ao invés de culpa, sentirão abandono. Eu não quero abandoná-los. Quero tornar tudo mais fácil para todos.
Não existe outro cheiro que não o da droga, outro sabor que não o da droga. Seu sangue se altera, sua mente voa. É a droga. Mas agora você quer me ouvir, quer dizer algo sobre a própria morte também.
- Aliás, deixe-me corrigir isto. - O sorriso sem felicidade alguma, comicidade da cruel vida. -Ninguém precisa de mim. Eu só pioro tudo.
Então fuja! Fuja sem nunca mais voltar, ninguém te julgará, eu de nada saberei, se nunca mais virem seu rosto.
Ele nem ao menos me considera. Olha para mim, seus olhos me cortam, e ele muda de papel comigo. Naquele momento ele queria me entender. Com o pouco que lhe restava de consciência, me analisou.
- Mal dia, Moon?
- Mal ano, na verdade, Cobain.
Fazia parte do trato não lhe revelar nada sobre Frances, o quão linda ela seria, e quanto precisaria do pai, ou como chorava Courtney. Nem sobre os caras da banda que jamais seriam os mesmos. Não podia nem sequer revelar que eu nascera anos após sua morte.
Tudo aquilo fulmegou no meu peito, mãos frias pareciam agarrar minha garganta. Você anda decidido, firme o suficiente para assustar qualquer um. Que homem ainda estaria firme depois de tudo? Pega a espingarda, aponta para o rosto.
E morre, o estampido não me assusta, eu não fui digna de olhar em seus olhos.


PS.: Muitas vezes já refiz esta história em minha mente. Não me dou o trabalho nem de ao menos inventar uma razão lógica para que eu viaje no tempo. O foco nem de longe é esse. E em todas as minhas versões, eu jamais teria conseguido mudar o que aconteceu.
Deixo aqui, talvez com alguns reais fãs ofendidos, meu tributo ao digníssimo Kurt. Ele não devia ter morrido.

domingo, 11 de março de 2012

Beleza opcional.


A mão esquerda congela, fria como uma pedra de gelo, seus dedos já a incomodam. A direita desliza pelo braço esquerdo, cruzado nas costas, acariciando o band-aid, próximo a dobra do cotovelo esquerdo. O band-aid vai cair, merda. Vão achá-la mais esquisita do que realmente é. Ela se cotou de novo, e não sabe dizer se valeu a pena, se aliviou de verdade a dor. E junto com o corte, de quebra descumpriu a promessa que tinha feito a melhor amiga. Nunca mais iriam se cortar. Era idiotice pseudo-emo.
Mas também não imaginava que motivos a amiga teria para voltar a se cortar. Quer dizer, estava feliz agora, vida nova, namorado perfeito. E toda a atenção voltada ao namorado perfeito. Ela não queria culpar a amiga (esta merecia felicidade), mas tinha que confessar que a tinham abandonado. Nem notaram o quanto ela precisava de atenção. Que seja, ela não iria dar uma de fraca agora.
Atrás dela, no meio da sala, uma professora de matemática tentava resolver um problema relativamente fácil. Então, se levantou e deixou que a professora, de no máximo 25 anos, resolvesse os cálculos sozinha, até ter certeza do que poderia ensinar a ela.
Aprendera no último colégio, que professores de matemática odeiam pressão encima de algo que os desafie. Incrivelmente, sentia falta até dos professores de matemática da antiga escola.
Grudou a testa no vidro da janela. Era meio da tarde, duas horas, duas e meia, os carros passavam pela Avenida apressados, ela mira a árvore lá fora.
As folhas brincam com o vento, e fazem um cenário lindo com o céu límpido no fundo, azul cintilante, a luz livre de prédios, banhando tudo (até aquela Avenida tão alheia a cena) do mais profundo dourado.
- Acho que... não... - sussurra a professorinha atrás dela.
Estavam sozinhas, numa espécie de aula extra que ninguém mais compareceu, ela fora, claro, por que não tinha amigos com quem tomar um sorvete ou ir a praia depois da aula. Acostumara-se a ficar até 12 horas por dia fora de casa, e mesmo que fosse resolvendo matemática, nada parecia normal quando voltava para casa.
'Voltar para casa...' Ela debochou do pensamento. Jamais voltaria para sua verdadeira casa, pois esta consistia na sensação de conforto puro que era estar junto de quem ela amava. E esses anjos estavam espalhados lá fora. Voando cada um na direção de seu sonho, se destino, agora separados.
Por que só ela era incapaz de abrir grandes asas brancas, quebrar a janela de vidro, assustando a professorinha e voar em direção as nuvens com um sorriso?
Mais carros passavam pela Avenida.
De repente, algo em sua nuca formigou. Algo escondido no balançar das folhas, coberto pela saudade que devastava seu peito. Algo talvez relacionado com aquela sensação gélida na barriga, porém quente na garganta, de não pertencer a este lugar. A sensação de não pertencer a parte alguma do mundo no momento.
Aquele formigamento era beleza. Isto mesmo, algo de estranho dizia a ela que havia beleza em toda aquela cena, havia nobreza de todos seus sentimentos.
Decidam por você, se acharam beleza. Ela sentiu, mas riu de si mesma, decidiu que escreveria tudo depois, mas não acreditava que alguém fosse gostar desse post.
"Saíam daqui e vão ler algo melhor."
- Achei! O teorema é simples...
A beleza se esgota, repentina como apareceu. Vamos calcular alguma coisa.

sexta-feira, 9 de março de 2012

1/4: Tem Uma Faísca De Amor Na Sua Cabeça.



Há muito seu coração não se aquecia de tal maneira. E, de tão quente, fervia, e doía, e machucava. Derretia-se, transformava-se em sangue, e sangrava; pelos poros, pela boca, pelo nariz. Transformava-se, vítima de uma evolução sombria. Mas sorria.
Virou-se, queimando, e sua garganta se desfez. Impossível gritar. Não fazia diferença; ela não gritaria. Aceitou a mudança, abraçou-a, fez dela parte da sua alma. E adorou-a por cada segundo daquela suposta agonia.
Mas era bom… Era uma dor tão confortável quanto insuportável. Dilacerava seu corpo, perturbava sua mente, iluminava sua vida. E mais. Formavam-se lágrimas em seus olhos, tão claros que pareciam brancos, que escorriam até seu queixo e pingavam, parecendo fósforos acesos. Tocavam o chão e incendiavam. Mais fogo.
Contorceu-se até a sensação se dissipar por completo. E, quando o fez, sentiu como se estivesse de fato à cair no chão duro do infinito. Assustou-se e, em um sobressalto, estava acordada.
Conferiu o ambiente em volta: estava em seu quarto, com os pijamas, e a lua lá fora indicava que era tarde. Fora tudo um sonho, que poderia facilmente se comparar a um pesadelo, se não lhe fizesse tão bem.
Fechou os olhos novamente, deitou a cabeça no travesseiro e se permitiu dormir mais uma vez, na esperança que o próximo sonho, caso houvesse mais um, não fosse tão desgastante. 
Em algum lugar da escuridão de seu cérebro, porém, uma gargalhada estrondosa ecoou, fazendo-a tremer. “Vá dormir, idiota. Não tem nada lá.”, prometeu para si mesma, e adormeceu.
Mal sabia que havia, de fato, algo “lá”. Tão forte que seria impossível escapar. Mas a voz decidiu que não contaria nada, por enquanto. Esperaria até que o coração, alguns centímetros mais abaixo, concordasse, e então combinariam de chamar aquilo de “amor”. Aí, sim, as coisas ficariam interessantes.

segunda-feira, 5 de março de 2012

O mundo quase cinza.

Chegou em casa de modo diferente costumava chegar. Todos na vizinhança sabiam quando a menina inquietável voltava da escola.
A van buzinava, os cachorros latiam, pedras voavam, era mirava nos muros, nas árvores, em um gato. Aquele gato em especial, Ferdinand, ela odiava aquele gato. De resto, tinha pena até de formiguinha. As empregadas faziam o sinal da cruz, o rádio era ligado no máximo, ouvia-se o som da menina aliviando a calor na piscina. De roupa e tudo, a mãe quase pirava.
Esse era o jeito que Lia chegava. Era o jeito que sempre fora.
Mas hoje, a rua permaneceu numa calma, tão estranha e pesada, que Dona Marta, da casa ao lado, bateu palmas no portão, aflita.
- Rita, sua filha está bem? Passou mal? Chegou da escola? Ai, minha nossa senhora, eu ouvi no Jornal que eu um cara doido...
- Martinha, está tudo bem. Lia está no quarto, estudando.
Marta arregalou os olhos, totalmente descrente, levando as mãos a boca.
- Jesus tem poder!

As pernas iam e voltavam, iam e voltavam. Não juntas, alternadas, agitadas. Tudo bem, ela poderia estar até mais quieta hoje, mas nada chegava ao extremo, era óbvio que não estava estudando. A mochila jazia no mesmo canto em que fora jogada horas antes. E ficaria lá até o dia seguinte.
O que acontecera fora sério! Lia não podia levar um dia normal, pois nada estava normal agora, suas estruturas foram todas abaladas. Não entendia mais o mundo como costumava entender.
A verdade era que aos seus plenos 9 anos de idade (e não deboche, pois gente velha tem uma mania infindável de inferiorizar os sentimentos dos mais novos), descobrira que o mundo era feio, injusto, sem graça.
Tinham tido uma aula de sociologia (ela não dava essa matéria, mas Tia Carminha de História faltou, o colégio então substituiu com o primeiro coitado que passou, Fábio, que de 'Tio' não tinha nada, e só dava aula para criança grande). Tinham aprendido que os pais pagam para o governo para melhorar a rua. Mas tem gente nesse 'governo' que ao invés de pegar o dinheiro e melhorar a rua, guarda no bolso.
Que pessoas covardes! Lia não pegava um único chiclete que não fosse dela! C omo todo mundo confiava num cara desses? A Silvinha fez pose de revoltada, falou bonito e disse que vai virar política para consertar... Mas furou a fila da cantina 15 minutos depois, que lógica tinha nisso?
Que hipocrisia! Quer dizer que além de não mais haver confiança no mundo, não havia mais verdade, palavra...
O mundo era feio, e as pessoas eram horrorosas. Ela tinha assistido o canal de notícias, ao invés do de desenho, as pessoas matavam, roubavam, e tudo por nada, egoístas e concentradas nelas mesmas. Uma menininha foi morta pela amante do pai...
"Pobre menininha" - pensou Lia, "o que tinha a ver com a amante do pai? Podíamos ter sido amigas." Suspirou. Para Lia, toda criança pode ser sua amiga.
As pessoas mentiam, afinal, tiravam vantagem de tudo e viviam buscando a oportunidade de puxar o tapete de quem chamam de 'amigos'. Crescer na vida, crescer, crescer, crescer, e fazer os outros de degraus?
Lia não entendia.
Fechou a cortina, trancou a porta, emburrada, talvez ficasse no quarto para sempre. Jogou-se no pufê, cruzou os braços.
O vento empurrou as cortinas. Um feixe de luz cruzou o quarto. Deixando no chão uma passarela de cores maravilhosas, só para ela. Esticou as mãos em concha, como se quisesse recolher um pouco daquela beleza. Tinha ali, só para si um arco-íris, as cores do mundo.
E entendeu que ele era único, lindo, e ainda fazia parte do mundo, e se, e se fosse essa a tal da esperança?
E deviam haver no mundo gente linda (por dentro) para vê-lo com ela. Pôs o arco-íris no bolso e saiu para espalhá-lo, afinal, o mundo, apesar de tudo, meus doces, continua bonito.

Like Coke, acredite, os bons são maioria (:

~
Aconteceu comigo:
Alguém: Eu vejo todo o amanhecer, tenho hábitos noturnos estranhos. rs
Moonday: Eu vou ver hoje, já que vou virar a noite mesmo rs, uma vez eu vi um lindo.
Moonday (um tempo depois): Aaah, eu vi o amanhecer *-* Mas aqui amanheceu feio, mal deu para ver :s
Alguém: Nunca amanhece feio.

Aprendam, com essas e outras, viver continua sendo muito perfeito (:

domingo, 4 de março de 2012

Asas.


Eis que, em um dado momento daquela vida preta e branca, ela cansou de ficar vendo tudo ir embora, correndo pelos seus dedos como água, sem uma barreira para impedir. Ela simplesmente cansou de se fazer de vítima, de culpar os outros, de não buscar tudo aquilo que deveria ser seu, por mérito ou porque assim quis o destino.
Já bastava. Já era o suficiente. Sem mais cacos, sem mais dor, sem mais lágrimas, sem mais exagero, sem mais tempestades. Ah… Estava farta de tempestades. A chuva lhe era algo tão bonito, tão sereno, tão cheio de paz. Por que esperar do outro lado da janela, quando podia dançar sobre a água? Por que não? Por que pensar tanto a respeito de pequenas coisas que, na verdade, não exigiam nada. Só atos. Só o momento. Só precisavam que fosse instantâneo.
Ela estava tão cansada de ter medo, de decepcionar, de querer que os outros a olhassem de maneira diferente… Estava se transformando em um ovo decorativo: tao bonito e atraente por fora, mas oco por dentro. E por quê? Por status? Por não correr riscos? Pelo quê?
Ela queria mais que tudo se explodisse, que a sua forma se explodisse, que todos os que a julgavam se explodissem também. Ela queria ter razões para provar para si mesma, e não mais para os outros. Ela queria ser seu próprio orgulho, sua razão para seguir em frente. Ela queria brilhar para si mesma, antes de brilhar para todos os demais.
Vestiu todas as suas armaduras, mas guardou suas máscaras. Não precisava mais delas. Não as queria. Não se importava. Pôs toda a sua luz, todos os seus raios de sol, toda a sua coragem e o pouco de determinação que lhe restava em seu “coração descartável”. Parou de jogá-lo fora. Jurou para si mesma que ele seria um só, sem ser de gelo. Seria um só. Derretido, que fosse. Mas sempre o mesmo, com as mesmas pessoas.
Ouviu as trovoadas lá fora, e não se preocupou em colocar sapatos. Só o pijama lhe era mais do que o suficiente. Destrancou as portas, abriu as janelas, tirou toda a proteção de suas torres; todos eram bem-vindos no seu castelo, fosse quando fosse.
E deu seu primeiro passo. Sem nada em suas costas, sem nada em seus olhos, sem nada para lhe proteger. Primeiro passo que poderia fazer com que ela caísse do penhasco, mas que também poderia levá-la para longe dele. E, se lhes é importante, ela nunca se sentiu tão livre.
Não sei bem onde ela está, no momento. Mas, uma vez ou outra, ela vem aqui dar um oi, dizer como as coisas estão indo. Ela está voando, parece. Alto, longe, só. Voando, apenas. Sem previsão para pouso.


(Esse é um dos textos que eu escrevi, olhei bem e falei: "Totalmente diferente do MM. Nada a ver postar lá. Vou deixar quieto." Mas, durante uma conversa realmente afobada com a Moon, passei esse texto pra ela e fui xingada com todos os nomes - acreditem - por não tê-lo publicado aqui. "Maldita! Os melhores textos no MM! A prioridade é lá!" E mais palavrões, como de costume, porque ela me ama e não vive sem mim.
Moon, minha linda, já postei. Posso sair do castigo agora? Haha.)