
Suicídio é tão um ato de egoísmo quanto qualquer outro. Não está só se privando das oportunidades que o mundo dará, como também privando o mundo do que você pode fazer por ele. Você sempre poderá fazer algo. E não quero ser motivacional, nem auto-ajuda, odeio texto assim. Estou apenas aqui, assistindo enquanto você prepara sua heroína, escolhe sua arma e dando minha opinião sobre o assunto. Eu não consigo calar a boca, sempre darei minha opinião.
Você pode ser o babaca que for, ter vendido sua mãe por drogas, além de egoísmo, é covardia. Está fugindo da batalha, cara. Quer dizer que além de babaca você é fraco? Que péssimo jeito de sair de cena. Com tantas formas que nosso corpo frágil pode encontrar de morrer... você se mata? É também desperdício.
Digo tudo isso em voz tranquila, não te conheço como seria apropriado conhecer, já que verei você morrer. As drogas começam a invadir seu corpo, como têm feito por tantos anos, mas dessa vez você ultrapassará seu limite, deixará que elas o tomem por completo. O que tem a perder a uma altura dessas, né? Suspiro, ainda não vale a pena. A espingarda repousa na cômoda, carregada. Onde você arranjou uma dessas?
Minha vida também está uma merda, cara. Eu já fui feliz. Sem ilusão alguma, totalmente livre e feliz. E perdi tudo que podia ter uma migalha desta felicidade. Arrancaram-me os sentidos da vida. Os reais sentidos.
"Ser feliz é ser iludido." Disse-me um alguém certa vez.
Não. Ele está enganado. Devia conversar mais com ele. Depois de apenas duas conversas longas (e apenas duas conversas, de qualquer forma), metade dos meus textos trouxeram uma frase dele. Não que ele seja um sábio. Não é. Só mais um rapaz que a vida porrou. Acho que ele já teve muito tempo para pensar nessas coisas.
Voltemos a sua morte. Engraçado como você não está chorando. Sempre imaginei suicidas chorando compulsivamente antes de morrer. Tolice a minha. Quero que saiba, eu sei que você não quer atenção, não estaria aqui para desfrutá-la, mesmo.
Você ri. Atenção... A única coisa de desejara não ter nos últimos anos.
Sei que é pessoal, sei que é apenas uma fuga, antes de tudo, de demônios internos que perseguem a você, somente a você.
Mas a sua morte não ganhará essa visão, alguém se culpará, outros ainda acusarão. O pior será você assistir isto tudo sem poder explicar que o culpado é você.
Talvez eles não entendessem, mesmo que explicasse.
Eu entendo que pense que o mundo está perdido, mas preciso que entenda que não pode se dar por perdido com ele.
Você, sua música, seus ideais, uma guitarra contra o mundo. Não quer mesmo comprar esta briga? Seria divertido.
Você pode fugir, anda, eu te ajudo a arrumar a mala. Fugir é tão egoísta quando suicidar-se, mas prefiro que fuja, é menos definitivo. E creio que um dia, com os pés cansados de correr, você terá uma espécie de revelação e decidirá voltar. Nem que seja apenas para testemunhar como a cidade piorou.
Você balança a cabeça, negativamente.
- Fugir deixa todos que precisam de mim desamparados. E ao invés de culpa, sentirão abandono. Eu não quero abandoná-los. Quero tornar tudo mais fácil para todos.
Não existe outro cheiro que não o da droga, outro sabor que não o da droga. Seu sangue se altera, sua mente voa. É a droga. Mas agora você quer me ouvir, quer dizer algo sobre a própria morte também.
- Aliás, deixe-me corrigir isto. - O sorriso sem felicidade alguma, comicidade da cruel vida. -Ninguém precisa de mim. Eu só pioro tudo.
Então fuja! Fuja sem nunca mais voltar, ninguém te julgará, eu de nada saberei, se nunca mais virem seu rosto.
Ele nem ao menos me considera. Olha para mim, seus olhos me cortam, e ele muda de papel comigo. Naquele momento ele queria me entender. Com o pouco que lhe restava de consciência, me analisou.
- Mal dia, Moon?
- Mal ano, na verdade, Cobain.
Fazia parte do trato não lhe revelar nada sobre Frances, o quão linda ela seria, e quanto precisaria do pai, ou como chorava Courtney. Nem sobre os caras da banda que jamais seriam os mesmos. Não podia nem sequer revelar que eu nascera anos após sua morte.
Tudo aquilo fulmegou no meu peito, mãos frias pareciam agarrar minha garganta. Você anda decidido, firme o suficiente para assustar qualquer um. Que homem ainda estaria firme depois de tudo? Pega a espingarda, aponta para o rosto.
E morre, o estampido não me assusta, eu não fui digna de olhar em seus olhos.
PS.: Muitas vezes já refiz esta história em minha mente. Não me dou o trabalho nem de ao menos inventar uma razão lógica para que eu viaje no tempo. O foco nem de longe é esse. E em todas as minhas versões, eu jamais teria conseguido mudar o que aconteceu.
Deixo aqui, talvez com alguns reais fãs ofendidos, meu tributo ao digníssimo Kurt. Ele não devia ter morrido.



