Beauty in all she is.

Beauty in all she is. Beauty in all she is.
A beleza em tudo que ela é.
Este verso. Noites melancólicas e pensamentos irrequietos por causa destas únicas cinco palavras na música A Thousand Years de Christina Perri. A beleza em tudo que ela é. Me corrijam se eu estiver errada, mas "ela", no caso "she", tem que estar se referindo a uma pessoa. Se estivesse se referindo a beleza, seria "it", aulinha de inglês com a tia Ju.
A beleza em tudo que ela é. Ela quem? 
E daí que começam minhas noites melancólicas e meus pensamentos irrequietos.
Ela, aquela que faz o mundo parar quando sorri, ela, que é divertida, com todo aquele humor que você nunca encontrou, e que combina tão perfeitamente com o seu. Ela, com aqueles gestos de, mil coisas, dama, sereia, rainha, princesa, deusa, fada, ninfa, bailarina. Ela, e toda a descrição de suas bochechas rosadas, seu cabelo tão único, seu rosto tão traçado.
Ela, óbvio. Com toda sua personalidade única, gritante nos detalhes, toda aquela sedução de mulher sem ser vulgar, e todo aquele olhar (geralmente de olhos belos e expressivos) de menina. 
Ah, com certeza, ela. 
Ela que nunca vai ser descrita como uma jamanta, um camelo tentando fazer yoga, atolada como um curupira, ou inteligente como uma porta, graciosa como um elefante, discreta como um rinoceronte, leve como uma morsa. Ah, não, ela jamais vai falar uma merda qualquer, ela não vai ser ignorante, nem grossa, a não ser que haja um nobre motivo por trás. A não ser que tudo isto também faça parte de seu charme. Ela está acima de tudo isto.
Ela é vista como a beleza de todo o mundo, amada como uma beldade deve ser.
Todos meus problemas começaram quando sofri lavagem cerebral para acreditar que poderia ser como "ela". Todas nós sofremos, nas novelas, onde a mocinha, mesmo errada, está certa, nos filmes da Disney, em tudo. Fui programada desde a minha mais tenra infância a acreditar que quando encontra-se um amor, ele se encantaria com todo o detalhe meu, pararia seu olhar em mim apenas para admirar sua amada por alguns segundos, acreditei que aquele que te amasse de verdade deveria adorar sua companhia, e tudo ficaria melhor se você estivesse presente.
Eu odeio "ela". Apenas por não existir, e apenas por me dar a esperança de que poderia. 



Ponto de vista.

O mercado estava cheio e as filas eram sempre muito maiores que a paciência de Carolina. Talvez fosse o excesso de vozes ou a música ambiente ruim, talvez fosse só a chuva torrencial lá fora, ou quem sabe era a raiva acumulada da necessidade de tomar café todos os dias e ter, vez ou outra, que ir até aquele lugar lotado de produtos que não a interessavam para comprar um pacote de pó.
Indiferente ao motivo que a irritava, ali estava ela: parada em uma fila, com cerca de doze ou treze pessoas à sua frente, todas lotadas de produtos, usando a calça jeans usual e os tênis sujos de terra e poeira, além da blusa preta com o nome de uma banda antiga qualquer. O cabelo escuro caía sobre os ombos, embaraçado e um pouco mais bagunçado do que o necessário, e os óculos de armação vermelha estavam pendendo no seu nariz, fora do lugar adequado. Ela não se importou em ajeitar. Em vez disso, roía a unha outrora longa do mindinho.
A moça à sua frente desistiu de esperar. Expirou pesadamente, largou a cestinha colorida em um canto e, xingando um palavrão, mandou todos naquele ambiente à merda e se retirou. Carolina ficou tentada à dar-lhe um abraço e dizer "eu entendo, minha amiga, eu entendo", mas guardou para si o pensamento e a simpatia, evitando um comentário grosseiro ou, mais provavelmente, um "vá se foder" merecido. Ao invés disso, tentou empurrar a cesta com o pé e, numa soma ao dia já emburrado, perdeu o equilíbrio e cambaleou para trás. O calcanhar atingiu em cheio o ferro do carrinho de compras branco e lotado que aguardava atrás dela e derrubou um plástico cheio de panos coloridos para se usar na pia.
- Opa. - Ela virou-se para trás e encheu a boca para pedir desculpas, mas perdeu a fala. O homem que abaixara para pegar o objeto estava levantando e a sua beleza a desorientou. Os cabelos cacheados caíam sobre os olhos negros como uma cortina macia, a blusa azul e lisa marcava os braços fortes e combinava com o jeans e os tênis brancos perfeitamente limpos.
Por um segundo, ela sentiu vergonha da roupa que usava.
Ele esboçou um sorriso de quem não se importou com o que aconteceu e, inclinando-se sobre o carrinho, perguntou, com a voz grossa:
- Tudo bem aí?
- Aham. - Ela gemeu. - Tenho que parar de beber nas quartas. - Tentou soar engraçada e esperou uma risada, mas ele franziu o cenho, confuso. - Brincadeira.
O sorriso veio de novo.
Ela virou pra frente, lembrando de súbito o quão desarrumada estava. E xingou-se por falar que tinha bebido, porque o estilo realmente remetia à uma mulher de ressaca. Disfarçadamente, levou a mão até os fios de cabelo mais altos e os abaixou. Passou a língua sobre os dentes, tossiu, puxou a blusa mais para baixo e a calça mais para cima. Tudo isso aos poucos, tentando não chamar atenção. Abraçou o pacote de café e deu um passo para frente. Olhou o relógio, a chuva lá fora, as unhas curtas, as chaves presas no dedo indicador.
Nada era suficiente agora que sabia que ele estava ali atrás.
Cogitou puxar assunto, falar sobre a marca do pano de pia, quem sabe comentar que o pé estava doendo um pouco. Pedir pra ele guardar o lugar na fila enquanto ela ia buscar uma coisa que esquecera, talvez? Ele parecia o tipo simpático que diria sim e ficaria por isso mesmo. Se quisesse puxar assunto, talvez já pudesse tê-lo feito. Não o fez. Ela não devia fazer, também.
Cruzou os braços e bufou.
Ou, quem sabe, devia. Só pra ver no que dava. Qual era a chance de cruzar com ele de novo, afinal de contas? Deu mais um passo à frente. Ele era legal. Ela podia sentir que ele era. E usava roupas que combinavam, talvez ganhasse bem. Talvez fosse por isso que o carrinho dele estava cheio e o perfume dele entrava pelo nariz dela: porque ele era legal e rico. Uma oportunidade única na vida.
Mas e se ela estivesse errada? Ele podia ser um imbecil. Ele tinha cara de quem era o tipo que leva pra cama e vai embora de manhã cedinho. Ou quem sabe aquele estilo todo e o fato dele não puxar assunto fosse a prova de que ele era gay. Sim, ele bem podia torcer para o outro time. E quem era ela pra julgar? Ou o carrinho podia estar cheio daquele jeito porque ele era casado e precisava fazer as compras mensais.
Gay e já casado com um outro homem versus hétero imbecil. 
Ela tinha sorte por ele não ter puxado assunto. Não é?
Enquanto debatia internamente consigo mesma, não notou que a fila diminuíra e, quando deu por si, já era a sua vez de passar o pó de café no caixa. Passou. Deu o dinheiro à mulher emburrada e gorducha que estava sentada naquele banco desconfortável e esboçou um sorriso. Olhou para trás disfarçando o máximo que podia e notou que ele não estava mais lá.
Virou o corpo. Diabos, onde ele tinha ido parar?
Talvez tivesse desistido. Talvez o marido tivesse aparecido e mandado ele trocar de fila. Talvez notara que comprar tudo aquilo não era necessário, uma vez que era um comedor desalmado. Talvez tenha ido procurar preços melhores e companhias mais arrumadas que não derrubem o pacote de pano de pia.
Carolina reclamou. Enfiou o pó de café em um saco plástico com o nome do mercado, pegou o troco da mão da caixa emburrada de um jeito feroz e, à passos largos e pesados, saiu do mercado. Encarou a chuva sem se preocupar em ficar molhada, porque aquele dia já estava ruim, de qualquer jeito. Atravessou, subiu a rua, girou a chave no portão e entrou em casa. Colocou as compras na pia, pegou a cafeteira e preparou a bebida quente. Enquanto a máquina fazia todo o trabalho, foi até o computador ligado, abriu o Facebook e digitou: "Rejeitada por um provável gay ex-comedor já casado em pleno supermercado só porque meu all star estava sujo e eu derrubei um pacote de panos. Tentando entender o que leva uma pessoa à ser tão superficial."
Voltou à cozinha, colocou o café na xícara colorida e tomou um gole enquanto ouvia o barulho das notificações do Facebook criar uma sintionia irritante, satisfeita e ciente de que, no fundo, ninguém se importaria se ela estivesse sendo exagerada. A verdade estava ali. Não era problema dela a incapacidade alheia de advinhá-la.

Morte da escritora.

Quando eu parei de escrever, foi como morrer.
Quer dizer, não literalmente, jamais poderia saber, nunca morri. Lembro-me de quando eu perguntava a minha mãe como era morrer, e ela respondia "sei lá, nunca ninguém voltou para contar". Gente morta se torna egoísta. Deve ficar tão surpreso, contemplado ou decepcionado, que esquece as curiosidades dos vivos.
Enfim, eu parei de escrever, desisti dos meus sonhos. E foi horrível, foi como sufocar e a cada dia me sentir mais insuficiente, mais nada. Foi como ser só carne e ossos, amontoados, organizados. Mas sem um propósito, sem um foco, sem algo pelo que acordar toda a manhã além da obrigação.
Não consigo lembrar de muitos momentos memoráveis durante este período, de uma risada mais sincera, ou de um abraço diferente. Talvez lembrasse caso escrevesse.
Queria perguntar agora para quem tem, ou tinha (como eu), o costume de escrever tanto: Vocês se releem?
Já releram algo que escreveram alguma vez? Já voltaram ao sentimento ali escrito? A todas as vontades, a toda realidade em que você estava inserido quando escolheu aquelas palavras?
Quase toda vez que faço isto, sofro de decepção. Decepcionei quase todas as minhas eus passadas. Esperavam mais de mim.
Enfim, (parágrafo começando igual) além de sufocar, desaprendi a escrever. Desaprendi a guiar crônicas, e a manter a atenção do leitor, desaprendi a manter minhas ideias minimamente interessantes, ou organizá-las de forma a gerar uma identificação com quem está lendo.
Esse texto fede, e eu sei, perdão. Tapem os narizes.
Eu poderia me prolongar muito, explicar durante muitas linhas a sensação de não escrever, esquecer projetos, e rir desgostosamente de sonhos. Sabem o que é sentir-se sempre a superfície de si mesmo? Como se estivesse em modo automático, que nem no filme Click? Não expliquei quase nada aqui, mas espero que façam alguma ideia.
E a todos que leram até aqui, perdão. Perdão mesmo. Foram só palavras jogadas, desabafos mal feitos e não um texto que tenha merecido o tempo de sua vida. De qualquer forma, obrigada.

Ah, Amanda, eu odiei o template. Estrelas rabiscadinhas? Sério?

(Falta de) explicações e (ideias para) 2013.

Não sei se começo com explicação, desculpas, os dois, ou simplesmente escrevo qualquer coisa e vocês que se virem em entender porque eu fiquei sumida, porque tá tudo diferente, quem diabos é Amanda, etc.
Acho que devia esperar para dar esse tipo de informação, mas ela vai chegar. Junto com as explicações e todo o resto. Juro.
Tudo que eu posso falar até agora é que o Meros Mortais está, quase que com certeza, de volta. O que significa que vão, sim, haver postagens novas e que, em 2013, nós vamos tentar não abandonar vocês de novo.
Por falar em 2013, contem pra mim como foi o fim de ano. Muitas piadinhas ruins, tias perguntando dos namoradinhos, falta de assunto na família? Aqui foi. Sempre é, né. Tenho um sério problema com fins de ano, e ele se repete todas as vezes: não há mudança. Eu poderia dormir durante o Natal e, quando acordasse, dizer exatamente o que aconteceu, porque todos os anos antes desse foram a mesma coisa.
Sou a pessoa menos adepta à rotina que eu conheço.
Então eu meio que me irrito um bocado e fico sentada no sofá, vegetando, esperando a "festa" acabar para poder ir para a minha casa (porque normalmente comemoramos na casa da minha avó) e dormir.
O caso é: meu fim de ano foi ruim. Com exceção da virada, porque eu passei na praia, tinha um amigo meu comigo, muita gente, então foi divertido. É, bem, "divertido". Não tenho do que reclamar.
Queria compartilhar mais uma coisa antes de terminar: estava no facebook esses dias e vi uma publicação que pedia para que, nesse ano que está começando, as pessoas separessem um pote ou uma vasília ou qualquer coisa desse tipo e deixasse no quarto. E aí, toda vez que acontecesse algo muito legal que te fizesse sorrir ou te deixasse super feliz, você escrevia em um papel e colocava lá. E fazia isso todos os dias. E no final dos 365 dias, você pegava o pote e podia ver todos os "pequenos presentes" que a vida foi dando.
Achei isso o máximo.
Sabe o topo das coisas legais? Então, essa ideia. E claro que coloquei um aqui no quarto e que estou escrevendo nele sempre que acontece alguma coisa. E eu escrevo tudo o que acontece de bom, então com certeza vou ter bastante pra lembrar. Demais, não?
Pra quem gosta de lembrar de coisas pequenas, é uma ideia fantástica. Usem e vejam no que dá depois. E tudo bem se você esquecer de escrever algum dia, afinal de contas não é pra criar compromisso. É só pra ser divertido.
Enfim. 
Esse post é meio sem sentido. Não é um texto, nem uma crônica, nem uma narração, nem nada pra fazer vocês pensarem. Só uma prova de que o blog (ainda) não morreu de vez e que vem mais coisa por aí. Mais histórias, mais séries e, espero, mais comentários e seguidores.
Torço para que vocês não tenham nos abandonado também.

Oito.

Tomás era uma criança, e, como todas as crianças, odiava dias chuvosos.
Deitado sobre a rede bordada que balançava suave junto com a brisa, ele mantinha os tornozelos cruzados e as mãos escondidas atrás da cabeça. Os olhos estavam fechados para que pudesse imaginar um céu azul, embora fosse difícil porque sentia as finas gotas da chuva respingarem em seu rosto e não havia quase nenhuma luz lá fora. Isso porque ainda eram duas horas da tarde. 
Estava pensando.
Com apenas oito anos, era o que as professoras chamam de "aluno exemplar", os pais chamam de "anjinho" e as terapeutas chamam de "perfeitamente comum". Era como a maioria das pessoas: pele branca, cabelos e olhos acastanhados, unhas bem cortadas, bochechas rosadas e uma voz gentil. Tirava boas notas, fazia a lição de casa, não deixava nenhuma bagunça no chão do quarto, arrumava a coleção de carrinhos todas as vezes que acabava de brincar com ela e ainda cuidava muito bem da irmã recém-nascida. Era, de fato, uma criança que se podia chamar perfeita, se isso não fosse um pouco inferior aos adjetivos que ele merecia. Tudo isso com (vejam bem) apenas oito anos.
Mas, escondida sobre a sua infância louvável, havia uma vozinha. Sim, uma vozinha. Era aguda e infeliz, que dizia à ele que as coisas estavam erradas e precisavam ser mudadas. "O mundo está coberto de pessoas más", ecoava a voz, experiente que só ela, e ele ouvia. "Nunca confie em ninguém, Tomás. O mundo é cinza. Cinza, eu disse. As pessoas não procuram umas pelas outras se não houver um interesse escondido." E, conforme a voz falava, tão certa do que estava dizendo, Tomás ouvia e acreditava.  Com apenas oito anos, ele tinha uma vozinha que o ajudava a enxergar os erros do mundo.
E, com apenas oito anos, Tomás criava em si a sensação de que, se alguém o havia concedido aquela voz, era uma bênção. Talvez Deus o tivesse escolhido para ser um grande salvador, alguém que ajudaria as pessoas e nunca, nunca, nunca cederia à maldade e à ganância do mundo. Com apenas oito anos, ele sabia que era uma espécie de Escolhido. Era isso que aquela vozinha o dizia. Que o mundo era mau e que as coisas precisavam mudar. E ele, com seus oito anos e sua imaginação fértil, aceitava a ideia de que era ele quem deveria mudá-las.
Deitado sobre a rede que balançava com a brisa, Tomás pensava, como qualquer outra criança comum, sobre o seu futuro. Nos seus oitos anos de vida, não havia visto muita coisa e nem sabia muito do mundo lá fora (a não ser pelo que a voz lhe contava e pelo que as pessoas grandes falavam), mas tinha planos para a sua vida. Faria algo grande quando pudesse. Algo que mudaria o olhar dos outros. Não se encaixaria nos padrões que impusessem. Seria como um super-herói, pronto para livrar as pessoas daquele lugar cruel e cheio de maldades em que viviam. Seria a primeira pessoa que conseguiria a paz de verdade, e a espalharia em todos os cantos porque egoísmo não fazia parte dos seus planos, nem nunca faria.
Tomás era uma criança de oito anos, mas tinha um coração que valia por oitocentos. Tinha ideias e mais ideias para o futuro. As memorizava. Imaginava como seria quando ele as puzesse em prática e não conseguia deixar de sorrir para si mesmo. Tinha tempo. Muito, muito tempo. O futuro era um ponto pequeno no fim de uma estrada gigantesca que o levaria a muitos lugares e fazia muitas curvas; ele mal podia vê-lo. 
Não sabia, entretanto, que o futuro há muito já o engolira.

(Série em oito capítulos, contando oito fases da vida de Tomás, minha nova paixãozinha literária.)