Amizades de artifício.


Dava para ouvir a música lá fora. Eu sabia que Tia Carla (como tão rapidamente eu comecei a chamá-la) estava dançando animada uma música clássica de festas e churrascos de família animados. Macarena. Ou aquela do "Olha, olha, olha a onda", quem sabe até aquele em que o Tigrão dá aulas de dança.
Não importava. Que dançassem até gargalhar dos erros uns dos outros, que bebessem até que tudo não passasse de felicidade. Minha melhor amiga não estava nada feliz, e era ali, do lado dela que eu estava, e permaneceria lá. Ela esteve comigo durante todo aquele ano, que estava morrendo lentamente, em suas últimas horas. Ela esteve em cada briga, cada momento. E em todas as oportunidades que teve de me deixar, de fazer algo mais interessante, de pegar o caminho mais fácil, e de maioria, ela olhou para mim e me seguiu.
Ah, sorrio. Seguir é modo de se dizer, Anne quase sempre esteve um passo na minha frente. Nunca me deixando para trás, me guiando. Mas de uma vez me perguntei (e ela também) o que seria de mim sem sua presença.
"Você cairia em muita merda, garota."
Pode haver resposta mais perfeita?
E agora, minha Anne, forte e guia, estava deitada na cama, chorando. Chorando forte, de soluçar. E parecia tudo tão errado, tudo tão anormal. Estávamos arrumadas, maquiadas e com nossos melhores vestidos de festa. A noite estava animada, e a festa seria boa. Nada como a de outro amigo nosso, bebendo e rindo em Cabo Frio até seus pais se perguntarem como ele não morreu, mas como uma diversão sutil, e a felicidade pairando entre todos.
Menos naquele quarto. No quarto de Anne, anfitriã da grande festa de Reveillon, eu estava sentada no chão, ao lado da cama, segurando sua mão, e tentando fazê-la se acalmar.
Devem estar se perguntando por que ela está chorando, eu sei. Bem, A melhor fase da vida dela teve seu fim quando os fogos de artifício queimaram. Era a contagem regressiva de uma felicidade que minha amiga nunca havia experimentado antes. E ela também nunca havia percebido isto tão bruscamente quanto agora.
- Nada acabou, Anne. Tudo ainda vive em você. Todas as lembranças, todos que conhecemos. Mesmo longe, se você nunca esquecê-los, e nem suas lições, esse ano durará para sempre. É só a Terra dando mais uma volta no Sol, que se foda isto.
Metade do que eu disse soava como uma citação de Caio Fernando de Abreu, e eu odiava quando isso acontecia. Parecia tirado de status de Facebook, mas era a verdade, e eu não soube dizê-la de outro jeito.
Ela continuava chorando, soluçando. E eu tinha a esperança de que tudo que eu estava dizendo estivesse ajudando um pouco. Embora as vezes eu calasse a boca, e só ficássemos quietas, naquele luto atemporal, ela sabia que eu entendia e isso bastava. Eu vivi com ela cada momento de que ela estava sentindo falta.
Podia lamentar cada amizade que iria para longe, cada amigo que seguiria seu destino. Mas, prometi a mim mesma, enquanto tentava acalma-la, que eu não sairia de perto dela nunquinha. Eu permaneceria.
1 hora depois, minha irmã, por assim dizer, e nada mais justo, desceu para a festa. E com o rosto perfeito, e sem nenhum indício de que havia chorado tanto, como eu jamais conseguiria. Demorou um pouco para entender tudo que lhe fora dito (não só por mim, óbvio, mas por pessoas ainda mais sábias que a aconselharam naquele dia). Aprendera naquele Reveillon que podemos sentir saudade de tudo o que aconteceu, mas devemos nos lembrar com alegria da sorte que tivemos por acontecer. As pessoas certas, nos lugares certos e horas pontualíssimas! Nós vivemos, e é isso que importa. Rimos, zoamos, choramos, mas estávamos lá, lembraremos de tudo e todos. E eles sempre estarão conosco enquanto usarmos suas lições para evoluir, para crescer.
E quando o champanhe foi estourado, e os fogos lançados, Anne sorria sincera. Encharcada com o primeiro banho de chuva do ano de 2012. Admirava os fogos, verdes, vermelhos, amarelos, prateados, que com suas luzes, faziam brilhar o rosto de minha amiga.
"Eu estou comemorando por eles." Me conta ela seu segredo.
Aqueles fogos únicos, que não foram lançados só por que nosso planeta gira em torno do Sol de novo. Mas sim para comemorar tudo que evoluímos, e como saímos dessa bem melhores do que entramos.
Saímos juntas. Sempre.
Deixo aqui meu texto para Anne, que vai ficar com preguiça de lê-lo. Você é 9 em milhões, guerreira. Eu te amo mesmo, com certeza.
E para todas as pessoas que evoluíram no ano de 2011, e o acharam tão incrível, tão saboroso, que chegaram a ter receio de 2012. Mesmo que sejamos minoria rs.
"Que 2011 sinta IN-VE-JA de 2012, mesmo que isto seja muito difícil."

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