As crônicas de Dona Igualdade. Parte 1: Homofobia.

- Oh, merda. - resmungou Tessy. A chave dela escapou de sua mão, indo parar debaixo dos armários. Tessy carregava pelo menos três livros enormes, de literatura, história e biologia. Tinha um trabalho de química para apresentar em cartolina daqui a uma hora, enrolado entre sua barriga e seu braço esquerdo. E agora, o movimento que ela fez para tentar recuperar a chave fez um dos livros (merda, o mais pesado!) escorregar e amassar uma parte do trabalho.

- Merda, merda.

Tessy sacudiu o cabelo para o lado, para tirá-lo da frente dos olhos. Sempre fora muito atrapalhada, e não conseguia mesmo fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Era delicada como um búfalo. O que Will estava sempre criticando nela.

"Com calma, Tessy." Disse a si mesma.

Quase sentou e meditou para arrumar tudo. No fim, estava tudo que deveria estar no armário, a mochila mais leve, as duas mãos livres para cuidar da cartolina. Respirou, hora de ir, ainda não estava atrasada.

Atravessou a porta da classe de Química segundos antes do Professor Gilbert fechá-la. Will a olhava querendo matá-la, com certeza imaginando como ela estava atrasada de novo, e como quase deixou o grupo todo na mão. Tessy sorriu ao ver a cara emburrada de Will, que nunca tivera muita paciência de uma forma ou de outra, mas nunca transformava aquilo numa briga de verdade.

- Ok, agora que a última integrante chegou, quem do grupo A vai apresentar o...

- Eu e ela mesmo. - levantou-se Will, já indo de encontro a Tessy, com um vestígio de sua cara fechada, agarrou a cartolina e a estendeu no quadro-negro.

Tessy nem ligou, sabia que o mau humor já ia acabar, mesmo. Sempre fora assim. "Will, bipolar." resmungou ela mentalmente, revirando os olhos.

Fizeram uma apresentação perfeita, a turma focou, e conseguiram prender a atenção, com uma pitada cômica, até mesmo de quem não dava a mínima para a matéria. Responderam corretamente todas as perguntas do professor Gilbert ao final do trabalho, até que...

- Senhorita Bader, a sigla 'Au' representa qual elemento químico?

- Au? - repetiu Tessy para ter certeza de que ouvira direito, já ia responder prontamente 'ouro' quando ouviu Will.

- AU!? - disse Will, tentando a muito custo prender o riso. E falhando claramente.

Tessy quase teve um surto, quase perguntou se Will enlouquecera, quando lembrou. "AU." Will, para implicar com Tessy, chamava a de 'cachorra', e Tessy, na frequente brincadeira, devolvia: "AU, AU."

E aquilo adquiriu uma graça quinze vezes maior no momento errado. Tessy caiu no riso, dando deixa para Will liberar de vez a gargalhada.

- Ou... rs, bufff, ou, rs, OURO! OURO, professor! - respondeu, com muito esforço Tessy, voltando a cair em gargalhada.

Óbvio, Gilbert de nada entendeu, mas por sorte também não descontou pontos.

- Ok, meninas, Senhorita Bader e Senhorita Valery, podem ficar com um "A".


Ainda risonhas, as duas foram se sentar no fundo da sala.

- Tessy, eu vou te matar! O que adianta você passar a noite inteira na minha casa estudando química se no final, quase chegou atrasada? - desdenhou Willma, massageando as têmporas, apenas para mostrar como isso a estressara.

Tessy não disse nada, mas ficou imaginando como ela ficava linda estressada. Willma usava um delineador como um pintor utilizava um pincel, e ficava lindo no contorno de seus olhos verdes, como ela mesma nunca conseguira imitar. O cabelo loiro platinado, incrivelmente natural, descia-lhe como uma cascada até o meio das costas, tão oposto dos cabelos pretos e ondulados de Tessy, que mal passavam dos ombros, e de seus olhos castanhos.

- Amor, vai dizer mesmo que você lamenta ter perdido aquela noite comigo para, hm, como você mentiu mesmo? "Estudar química", né? A única química realmente testada ontem foi a entre o seu corpo e o meu.

Willma por um momento pareceu que ia pular em cima do pescoço de Tessy. A loira sempre fora mais comportada, estudiosa, não gostava de pegações em público, de roupas vulgares, de sacanagens explícitas, nem de músicas que só falassem de sexo. Demorou mais de 7 meses para alguma coisa realmente 'rolar' entre ela e Tessy. E olha que não estamos falando de menininhas virginais de 14 anos. Tessy completara seus 18, daqui a dois meses era a vez de Will.

No começo, odiava quando a namorada fazia essas piadas sujas diante de sua irritação, por que Tessy sempre fora assim. Moleca, suja, baixa, respondona, divertida, abusada e mandava se fuder qualquer um que a julgasse. Mas Will tinha certeza, Tessy também mandava se fuder qualquer um que tentasse machucá-la. E era isso que a santinha mais amava em sua cachorra.

- Você não tem jeito mesmo. - disse baixinho Will, mais concluindo do que brigando, em um tom mais amável.

- Sabe que não. - deu de ombros Tessy.

- Então que tal, não ter jeito, hoje a noite estudando Física? - disse Will num tom malicioso, e um olhar sapeca, raros, claro, mas toda vez que existentes, faziam os olhos de Tessy brilhar, deixando-a imaginar se ainda haveria esperança de Will perder sua vocação para Madre Teresa de Calcutá.

- HEY, meninas, pelo amor de Deus, não me façam imaginar essas cenas. Eu tenho 17 anos e sou um homem! E meio 'duro' para mim, sabe? - zoou Thomas, sentado a frente de Tessy.

- Ah, Thomas, vá a merda, estamos sussurrando, você está se metendo de novo! Fofoca é pecado, você vai é pro inferno!

Thomas sorriu. 'Pecado' e 'inferno' eram algumas de suas piadas preferidas.

8 comentários:

  1. Caramba muito bom o post...me lembrou da forma de escrita de uma colega minha..Parabéns!!

    http://eitapreulacampina.blogspot.com/

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  2. Gostei bastante da crônica ,muito bem desenvolvida . seguindo o blog , se puder me segue ?
    http://fleonandthecity.blogspot.com/

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  3. Bem escrito...Bela crônica!!Perfct...:
    Seguindo...Comenta e segue...Retribuo,só avisar!.:http://escritordebrinquedo.blogspot.com/2012/01/fashion-rio-inverno-2012.html#links

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  4. Já é a quinta vez que leio. bem interessante.

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  5. Ual, gostei muito. No começo eu pensei que Will fosse um garoto, William, talvez. Na segunda parte surge Wilma, loura platinada (acho lindo cabelo assim). Homofobia é realmente algo tão ruim e sem sentido. Os seres humanos tem mania de fazer outros seres humanos sofrerem por simplesmente serem como são. Talvez você goste de ler isso: http://garotomalintencionado.blogspot.com/2011/02/ele-foi-tirando-roupa-bem-devagar-na.html

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