As crônicas de Dona Igualdade. Parte 2: Deus.

- GAROTO, SE VOCÊ NÃO LEVANTAR DAÍ AGORA...
- A senhora vai me jogar um balde d'água. - completou Thomas pela mãe automaticamente.
Odiava acordar cedo. E não só por que agora tinha festas nos fins de semana, provas surpresas, e uma internet ilimitada, além da TV a cabo, nem tudo isso que o prendia e não o deixavam dormir depois das 2 da madrugada nunca. Sempre, desde criança, desde quando seu pai lhe contava uma fábula antes de colocá-lo na cama, fazendo-o dormir antes das 10 da noite.
Talvez, Thomas fosse apenas um amante do sono. Ou um vagabundo preguiçoso.
- Você está parecendo um... como é mesmo? Um panda, com estas olheiras. - implicou Tessy ao vê-lo entrando pelo portão da escola.
- Bom dia, meu doce. - devolveu ele, totalmente sarcástico.
Thomas e Tessy eram primos, e cresceram juntos. Thomas soube da decisão de Tessy antes mesmo da mãe dela. O que levou Thomas a se chamar de burro, pois deveria ter percebido antes. Tessy era tão, mas tão exigente com os meninos, que era mais fácil ganhar na loteria do que ficar com ela. Tão exigente, que no fim, não queria nem mais que fossem meninos.
O sinal tocou, e os inspetores estavam tentando organizar os adolescentes um filas de acordo com a classe.
Thomas se arrastou como um zumbi até seu lugar, na frente de Willma, e depois de um silêncio frágil, os auto-falantes da escola começaram a tocar a melodia do hino nacional, precariamente cantado pelas vozes dos alunos.
Thomas quase dormia em pé quando o hino acabou. A diretora pegou o microfone e disse:
- Meus jovens, vamos agradecer por mais um dia de vida...
Thomas não ia aguentar aquela palhaçada, pelo menos não podia ficar igual a todos ali, a quem gostava de se referir como 'ovelhinhas', que pensavam pouco, e aceitavam demais. Thomas saiu de sua posição um instante, tentando se retirar de fininho para a sala, sem atrapalhar ninguém. Por que não era por que ele não queria participar que iria estragar para quem queria.
Foi quando a diretora o viu.
- Um momento, Thomas Bader? O senhor pode agradecer por nós? Venha até aqui menino.
Era um desafio, a diretora pensava naquilo como forma de puni-lo por ter tentado escapar. Não era uma ofensa pessoal, até por que, a diretora não conhecia Thomas mais do que por vista.
Thomas andou relaxado até a frente das fileiras, onde a diretora estava, pomposa com a mão nos quadris, e se virou um momento para olhar para a prima, que, como faziam desde crianças, pressentiu que ele ia aprontar. Willma também deve ter percebido, pois olhou nervosa para ele, como se implorasse que ele não fizesse nada de errado.
Thomas pegou o microfone, olhou para a diretora, como se perguntasse o que fazer.
- Pode fazer as orações, Thomas, estamos ouvindo.
Muitos de seus colegas de escola estavam quietos, com as mãos juntas, e cabeça baixa, de olhos fechados. Thomas geralmente respeitava esta condição, e nunca fazia nada contra eles, por que também gostava de ser respeitado. Mas dessa vez incluía ele, e ele não ia rezar.
- MUITO OBRIGADO, MÃE, POR TER ME ACORDADO HOJE. EU JURO QUE O DESPERTADOR PAROU SOZINHO!
A reação não foi menos do que a friamente calculada por ele. A diretora puxou o microfone de sua mão tão rápido que quase deixou-o se espatifar no chão, alguns alunos olharam sem entender nada, outros, pricipalmente os do início da fileira, estavam boquiabertos. Algumas meninas disseram 'babaca' e 'idiota', outras preferiram 'moleque' e 'quer atenção de todo mundo'. Raras ainda deram risinhos. Os colegas de Thomas olharam para ele sem julgar, mas com olhares divertidos, como se dissessem 'O que esperavam de você, né?'.
Thomas sorriu. Foi divertido.
- Senhor Bader, o senhor não subirá para a aula, o senhor vai pegar suas coisas e ir direto para a minha sala, onde eu e o senhor teremos uma conversinha. E acho melhor o senhor torcer para que eu não lhe dê uma suspensão.
O número de vezes de que a diretora disse "senhor", assim, pondo ênfase em cada um deles, irritou o garoto.
Minutos depois, ali estava ele, sentado numa das poltronas do lado de fora do gabinete da diretora Flynn, onde geralmente os pais aguardavam a diretora magrela arrumar a mesa para dar-lhes uma impressão melhor. Thomas balançava os pés como um menininho. Não estava nervoso com aquela conversa, já tinha tido milhares, com os mais diversos profissionais. De um pastor a uma analista. É que o episódio o levou a fazer uma retrospectiva, tentando achar o ponto de ruptura. Tentando entender o momento em que ele parou de se encaixar perfeitamente em um deles.
Ele era batizado na Igreja Católica, mais precisamente, foi batizado na mesma igreja em que seu irmão mais velho, Tessy e a maior parte de seus familiares também foram. O lugar onde seus pais se casaram também. A mãe de Thomas era conhecida por ali, e sempre vista nos dias de domingo. O domingo inteiro. Thomas já entrou com o padre, já recolheu o dízimo, ja se vestiu com uma bata que fazia-o parecer um mini-santo.
Fizera todas as catequeses exigidas, sem reclamar. Passou um tempo correndo animado para entrar na fila da hóstia, orgulhava-se de ser um dos mais jovens a ter o direito dela, do corpo de Cristo. E depois mordia a língua, 'orgulho' estava incluído na lista de pecados que ele memorizara.
Thomas Bader foi, por toda sua infância, o queridinho da igreja, e uma criança muito religiosa.
Mas talvez isso mesmo tenha ajudado a tranformá-lo. Aos doze anos, Thomas começou a frequentar a "Escola Dominical" de sua Igreja, onde iriam estudar a Bíblia, recitar salmos, entender os profetas e coisas do tipo.
Por ter crescido naquele meio, esperavam que Thomas fosse o que melhor se sairia, e de certa forma ele foi. Thomas estudou muito. Até demais, tudo relacionado a Bíblia que ele pudesse por as mãos, além da própria.
Aos treze anos, amadurecendo com aquela ideia desde o início da Escola Dominical, Thomas transbordou. E ninguém esperava por isso.
- Padre Pedro?
- Sim, meu filho.
- O senhor já brincou de telefone sem fio quando tinha a minha idade?
O padre sorriu.
- Sim, sim, e de muitas outras brincadeiras.
- Sabe como funciona?
- Claro. Uma criança cria uma frase, diz para outra, que repassa para a próxima, assim por diante. No fim, a última criança diz o que ouviu, o que na certa é bem diferente do que a primeira disse. Quanto mais crianças, mais distorcida a frase fica. Brincou disso no intervalo hoje?
-Hm, não. Mas me é curioso. Se a Bíblia já foi traduzida tantas vezes, e re-editada mais outras tantas, por mais de séculos e séculos, passando de língua para língua, povo para povo... Ela não está meio distorcida? Ouvi dizer que em algumas Bíblias antigas, cortar barba e bigode era pecado.
O sorriso se esvaiu do rosto do padre, tomado por uma decepção e surpresa, acabando em indignação.
Apesar deste episódio, Thomas continuou na Escola Dominical por mais um ano. Sempre corrigindo, sempre trazendo dados contraditórios, pesquisas científicas inegáveis, cada vez mais gostando da expressão de susto no rosto dos padres e irmãs, que dificilmente respondiam suas perguntas.
Aos 14, Thomas foi finalmente expulso de forma espetacular.
- Padre, olhe isto.
O padre, já conhecendo a fama daquele menino desviado, tomou nas mãos uma pedra leve, lisa, e um tanto comprida, mas que não passava do tamanho de um lápis.
- O que é, Bader?
- É um osso muito antigo, um FÓSSIL, de algum dos dinossauros que viveram antes de nós, e foram extintos há milênios atrás. Alguns animais desta época evoluíram, e uma das espécies se tornou o homem como o vemos hoje. Eu roubei este pedacinho da última excursão ao museu. Mas já já devolvo. Você o vê? Diga para mim que não existe, e que estou mentindo, padre.
A mãe dele chorou quando soube.
Mas isso já fazia 3 anos. Sua mãe, a muito contragosto aceitara a decisão do filho, embora todo domingo, ainda perguntasse na hora em que saía de casa "Thomas, você quer vir comigo?", mesmo que Thomas nunca mais tivesse a acompanhado.
Aprendera também que não tinha muito juízo quando pequeno. Enfrentava abertamente os padres e as irmãs, e quase todo mundo que mantivesse sua fé. De certa forma, estava fazendo como eles, tentando puxá-los para o lado que acreditava estar certo. Odiava quando as pessoas, totalmente cientes de sua condição de ateu, tentavam convertê-lo, então parou de contra-argumentar toda vez que alguém dizia "Amém" ou "Graças a Deus". Era mais fácil viver, e deixá-los viver. Tinha muitos amigos cristãos, e desde que não discutissem sobre religião, era uma amizade perfeita. Não fazia diferença para Thomas a religião da pessoa, ele não a julgava por isso, nem a seu caráter, e gostaria de também não ser julgado por este detalhe.
Desde que se tranformou de queridinho da igreja, para decepção geral da mesma, Thomas andava exercitando seu poder de não se meter, e simplesmente deixar as pessoas viverem de acordo com o que achassem certo. Era o que fazia na oração da escola, desde que entrara lá, saía de fininho, ia ao banheiro e subia disfarçado para a sala ainda vazia.
Mas naquele dia, tivera o que imaginava como 'recaída', como também o apelido 'ovelhinhas' que inventara para quando os cristãos ficavam quietinhos de cabeça baixa. Tinha que parar com isso. Tinha que evoluir como pessoa, e não implicar com ninguém.
- Senhor Bader, pode entrar. - a voz da diretora Flynn cortou seu fluxo de pensamentos.
Thomas se levantou, e já ia entrando quando Amy Swinton, uma menina de olhos azuis e cabelos cacheadinhos cor de mel, passou disparada para fora da sala da diretora. Amy era a melhor amiga de Thomas, por quem ele, secretamente sempre teve paixão.
- Amy? - chamou ele, virando-se.
Ela o encarou, e imediatamente seu rosto corou, e seus olhos encheram de lágrimas, então ela deu meia volta e saiu pisando fundo. Thomas não entendeu nada, e anotou mentalmente 'perguntar a Amy o que houve', ficara preocupado, não queria que nada tivesse acontecido a amiga.
- Bader! - chamou a diretora, que ele quase esquecera.
- Só não ligue para minha mãe. Ela vai ficar muito, muito chateada mesmo.

Um comentário:

  1. Ótimo texto... A verdade é que fé nada tem a ver com religiões, ir a missa todo domingo e coisas do tipo... Fé é algo interior...

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