As crônicas de Dona Igualdade. Parte 3: Padrão de Beleza.

- Jessy, minha linda, você está graciosa e quase perfeita. Mas olha, vê como Amy pega impulso? Tenta do mesmo modo. Quando o treinador Paul disse isto, Amy teve vontade de enfiar a cara em algum ponto entre o piso e o tatame que usavam na aula de ginástica. Já não gostava de ser usada como parâmetro. Ainda mais para Jessica Winner (não, não é sacanagem, o sobrenome era mesmo Winner), que Amy sabia muito bem, a odiava. Ela não gostava de nada disso, mas sabia que tinha um porquê. Amy fazia ginástica desde seus 4 anos de idade, e seu treinador sempre fora Paul. De tanto observá-la, corrigi-la, ajudá-la, e conhecer tão bem cada salto e passo que Amy fazia, ficou natural para Paul usá-la sempre como parâmetro. Jessy entrou na ginástica aos 13, e nunca gostou dela. Isso (imaginava Amy) era por que Jessy tinha que ser a melhor. Além de sua personalidade agressiva, competitiva e nada amistosa, Jessy parecera nascer para ser ginasta. Era magra, não muito alta, não muito baixa, de ossos pequenos, quadril estreito. Seu corpo se ajustava ao maiô das aulas como se fossem feitos especialmente um para o outro. E foi a ginástica que Jessy escolhera para ser a melhor, embora ela tivesse a mania de querer ser a melhor em muita coisa. E Amy (ah, pobre Amy!) estava no caminho. Por prática, e amor pelos exercícios, Amy acabou sendo a melhor que o grupo de ginástica da cidade já vira. Talvez até o estado, devido a quantidade de títulos e troféus que dera a Paul, este costumava chamá-la de "a pequena surpresinha dos jurados".
- Quem, sem te conhecer, minha querida, diria que você é tão boa no que faz? E Amy era mesmo boa, e de longe, ninguém diria isso. Ela era quase o contrário de Jessy. Seus ossos eram largos, o quadril também, e nunca, nunca mesmo em sua vida conseguira ser magra. Não que fosse uma obesa, mas não ficava muito divina no maiô do treino, embora houvesse tanto tempo que deixara de se importar com isso. Amy simplesmente não parecia uma ginasta, por melhor que fosse.
Amy só não queria chamar tanta atenção. Ainda mais nos últimos quatro anos, com Jessy circundando-a como um tubarão, esperando o momento certo. E suas 'aprendizes', Yumi e Beatrice dando força. Já era demais ter que aturar aquilo, como se fosse ruim ser boa, na academia. Era pior ainda na escola. Aquele trio não deixava Amy se sentir bem em nada. Jessy era linda, e sabia disso, era rica, convencida, esnobe e falsa. Só tratava com respeito e simpatia dois tipos de pesssoas: as que tinham algo que ela queria, e os pobres garotos que seriam devorados. Amy jurava que tentava ignorar.
- Atrasada, Amy? - bronqueou a inspetora.
- Perdão, mas foram só dez minutos...
- O hino já está no final, e daqui a pouco é a oração. É melhor a senhorita ir direto para a sala quietinha, sem bagunça, e no intervalo, passe na secretaria para pegar seu, será vigésimo?, bilhete de atraso.
Amy revirou os olhos. Assinava os próprios bilhetes desde que se lembrava. Esses casos, de chegar sempre atrasada, e acabar sempre na sala sozinha, foi o que presenteou ela com a amizade de Thomas Bader, que escapava da oração e subia direto para sala. Ficavam os dois sozinhos, conversando sobre nada e tudo, e os assuntos foram ficando cada vez mais íntimos, até Thomas chamá-la de 'melhor amiga' e Amy sentir o coração bater mais forte toda vez que falava com ele. Odiava estar apaixonada por ele. Thomas era lindo, divertido, irreverente... E bem, ela era sem-graça e não podia nem sonhar com o corpo das outras meninas. Mas naquele dia, Thomas não estava na sala, como de costume. Amy procurou-o no pátio, e também não o viu. A inspetora tornou a olhar feio para ela, que foi se esconder no banheiro feminino para não ganhar outro bilhete. "Péssima ideia." pensaria mais tarde, assim que Jessy, Yumi e Beatrice entraram logo atrás. Geralmente, elas não faziam nada que pudesse comprometê-las, então Amy as ignorou. Mas as três começaram a cercá-la, olhando umas para as outras com risinhos nervosos.
- Bom dia, Jessy. Beatrice. Yumi. - cumprimentou Amy olhando diretamente para cada uma, mas sem nem a sombra de um sorriso.
- Já viu uma baleia voar, Yumi? - disse Jessy, ignorando Amy totalmente.
- Toda quarta, quinta e sexta, de noite. Quando Amy vai tentar saltar. - respondeu Jessy.
Todas riram histericamente. Amy estava ficando tensa, e se esquivava de um lado para o outro tentando encontrar uma saída daquela teia de piranhas.
- A queridinha do treinador... acho que teve que pagá-lo para deixá-la na equipe, né? Ou quem sabe fazer coisa pior... Ele curte uma gordinha, Amy? - Jessy continuou.
Aquilo era tão baixo, sujo e mentiroso, que Amy se surpreendeu, mesmo que viesse de uma pessoa tão baixa, suja e mentirosa como Jessy. Seu espanto fez com que abri-se a boca de indignação, e a fecha-se de novo, sem palavras.
- Por que você não se mata, hein? Qual é a porra da sua utilidade nesse mundo? - Yumi disse, se aproximando.
Amy pensou em algumas respostas perfeitas, mas viu que estava em menor número.
- Meninas, na boa, só me deixa sair daqui que eu...
- Prometa que não vai mais competir e saía da equipe, que vamos deixar você ir e encontrar, sei lá, sua família de jubartes para caçar focas. - rosnou Jessy.
- Não. - Amy deu um passo a frente, e firme. Aquilo já estava a irritando de verdade, e nem que mil cachorras como aquelas a cercassem, jamais pararia de competir. - E jubartes não caçam focas, anta.
Jessy se espantou. Não esperava que a sempre doce e serena Amy revidasse, as coisas começavam a sair de seus planos.
- Olha, ela entende de baleias. - riu-se Beatrice, até então calada.
Yumi riu junto, e isso fez Jessy sair de seu transe momentâneo. A loira olhou para Amy, meneando a cabeça, como se tivesse decidido partir para o Plano B. E seu rosto magro pareceu maléfico, a ponto de lembrar (e por medo) a Malévola, da Bela Adormecida.
- Sabe, Yumi, lembrei uma utilidade para esse Rabicó. Ela vai ficar de plateia para o meu showzinho com o Thomas hoje.
Amy tremeu. Não, aquilo não, não aquele ponto. E Jessy percebera que a atingira.
- Ele é mesmo uma delícia, né? - entrou Beatrice no esquema.
- Nem me fale. Mas ainda tenho que provar, vamos ver o quanto ele aaaah - gemeu ela - delicioso hoje. - envenenou Jessy.
- Está blefando. Thomas nunca nem chegaria perto de você, ele te acha uma cadela puta. - cuspiu Amy, lembrando de algumas coisas que Thomas falava sobre Jessy, tirando um peso de si mesma.
- Meu amor, ele sabe que a orquinha aqui arrasta uma barbatana para ele, querida. Ele gosta. Acha engraçado, sabe, você se derreter de amorzinhos por ele? É a nossa piada preferida. - disse Jessy.
- Não... - Amy começou, mas sentiu que ia chorar e se amaldiçoou por isso. A quanto tempo estariam os dois se pegando e rindo da cara dela?
- Ela vai choraaaaar. - gargalharam as três.
Então, Amy ouviu a voz de Thomas no microfone. Nada que pudesse escutar, distinguir, mas era a voz dele, com certeza. E depois as risadinhas, a reação do povo enfileirado lá fora.
- Nossa, Thomas cumpriu mesmo o trato? - fingiu surpresa Beatrice.
- Caralho, ele disse mesmo! - jogou Yumi.
- O que tem Thomas? O que ele disse? - Amy perguntou sem pensar.
- Thomas Bader acaba de fazer piada com você para toda a escola. - gargalhou de cair no chão Jessy.
Amy saiu em disparada, com o rosto vermelho e a visão turva. Parou no pátio, enquanto os outros subiam para suas salas, e tentou se esconder em um dos cantos, sentada na mesa. Pôs o capuz, e enxugou as lágrimas. Sempre fora muito chorona e sempre odiara isso. Afundou a cabeça nos braços, apoiados na mesa, quando alguém tocou seu ombro. Era Nancy, a enfermeira da escola.
- Esta passando mal meu bem?
- Nã - então lhe ocorrera que precisava urgente ir para casa. - Sim, estou com uma cólica horrível, meu estômago não para de dar voltas, estou em jejum, e não consigo comer nada, enfermeira. A cabeça está começando a doer, e acho que preciso telefonar para casa.
A enfermeira lhe pagou um lanche, tirou sua pressão e lhe deu um comprimido, depois a mandou a sala da diretora Flynn para ligar para seus pais. Amy mentiu muito bem, e não parava de tremer - de raiva, de tristeza, de vontade de se enrolar em posição fetal para sempre -, o que ajudava a acreditarem que ela estava doente. Flynn ligou para seus pais, e eles deram permissão para que Amy saísse da escola. Ela já estava indo para casa, agradeceu a diretora e quando abriu a porta... Deu de cara com Thomas.
- Amy? - chamou ele, virando-se.
Ela o encarou, e imediatamente seu rosto corou, e seus olhos encheram de lágrimas, então ela deu meia volta e saiu pisando fundo, deixando-o com cara de bobo. Nunca mais queria vê-lo na vida.
Saiu do colégio o mais rápido que pode, parou no ponto pra pegar o ônibus pra casa. E de surpresa, viu James Myers, um colega de classe parado ali. Conversaram um pouco, e o ônibus dela chegou.
- Hey, James, eu sei que esse também vai para sua casa.
- Hm, deixe para lá, eu tenho que...
- Eu sei. Anda, sobe, eu pago.

5 comentários:

  1. Belo texto... Tem continuação?

    Abraços do Cabeça de formiga

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    1. tem sim sim. as crônicas de dona igualdade tem 5 partes. mas lendo as anteriores (principalmente a segunda) dá pra entender melhor essa, por causa do Thomas e o que ele realmente fez.

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  2. Oi, tô passando pra te parabenizar pelo blog. Template sóbrio, na medida, com elementos da personalidade da dona. Bacana, mesmo.
    Vou passar a ler com frequência.

    Abraço

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    1. Vou me meter e responder o comentário da Moon, bjs. KKKKKKKKKKKKKK Obrigada pelo elogio ao template, deu um trabalho da pomba pra conseguir fazer, por mais simples que pareça (e seja).

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  3. aah bom, por isso fiquei meio voando! rsrs... por causa das outras partes, é sempre bom a gente ler completa! Muito bom o texto...

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