Camilla, a caloura. [Parte 1]

"rôoo, olha só seu dente! aushuahs' e seu cabelo, gzuis \z"

"aeee, né? agora da gordinha de batom marrom vc neem fala! run'"

Rodrigo era um daqueles amigos que você tem a sensação de sempre ter conhecido, de tanto tempo que está na sua vida. Daqueles amigos que é lei universal nunca chegar no msn e dizer 'oooi :)' e sim algo entre 'já me esqueeeeeceu, né? ¬¬' ou 'você é tão chato, tão chato, que vou falar com você'. Isso por que agora não em recordo de inícios de conversa melhores.

Quando as férias chegaram, e bateu aquela saudade um do outro, de toda a turma, aquele tédio insuportável e a vontade de abraçá-los até reclamarem de como sou carente e chata, a intimidade, até virtualmente, apareceu como num passe de mágica. E com raríssimas pessoas consigo manter uma conversa decente entre emoticons e erros gramaticais.

Não demorou muito para caçarmos nos confins de nossas pastas de imagens, fotos bem caquéticas, do começo de nossa amizade. Rô tinha muitas, e em cada uma estávamos mais retardados que a outra.

Lorenna ainda era loirinha, Sandrinho era magrelo feito uma vassoura, Cadu tinha bochechas rosadinhas como as de um bebê, Mayara usava faixas coloridas com milhares de tic-tacs prendendo marias-chiquinhas, Rodrigo não tinha usado aparelho ainda, tinha os dentes tortíssimos. E eu, era a mais alta da turma, a gordinha e tinha um batom marrom que parecia ter saído da gaveta da minha avó.

E todos nós nos achávamos lindos, adolescentes e maduros. Aos alto dos 8, 9 anos de idade.

Na hora, com o compartilhamento de fotos aberto, ríamos sozinhos em frente a tela do computador, lembrando de quem conhecíamos, do que achávamos. Da professora que o Rô era apaixonado, e do menininho que eu me derretia de amores.

Depois, sozinha, deitada na cama, tentando dormir, as risadas pareciam um eco cruel e hipócrita. E eu chorei baixinho, de saudades que eu sabia, só piorariam.

Tínhamos 15 ou 16 anos agora. Lorenna vai se mudar para Florianópolis, onde o pai ganhará do triplo do salário. A mãe de Sandrinho (como vou sentir falta da rabanada fora de época de Tia Vera!) não está podendo pagar a mensalidade da escola, então ele tentou uma bolsa, e para orgulho da mamãe, tirou 70% numa outra aí. Cadu (aquele nerd!) passou para o Colégio Naval e para a Epcar, e como por implicância, decidiu logo ir para Barbacena, o mais longe! Mayara já vai fazer um intercâmbio, o que eu achava que nem existia na idade dela. E eu lembro de todas as vezes que ela dispensava piscina na minha casa por causa do curso de inglês. Foi a primeira de nós a dominar a língua.

Rodrigo era o único que continuaria na nossa escola de origem. Nossa segunda casa, onde todos nós tivemos a chance de nos conhecer e aprender muito mais do que os professores explicavam na sala de aula em 8 maravilhosos anos.

Eu? Infelizmente, meus pais acharam uma escola para mim, pertinho de casa, dá para ir andando. Antes, levávamos 40 minutos até minha antiga escola. Eu nem ia para a casa depois do turno, ficava fazendo hora na casa de minha avó, que era do ladinho da escola, até meus pais saírem do trabalho e me levarem para o outro lado da cidade, onde eu morava.

Eles finalmente se cansaram. E argumentaram que era mesmo melhor para nós, eu e minha irmã caçula. Disse que poderíamos acordar mais tarde, estudar mais, passar mais tempo em casa.

Acho que se eu tivesse batido o pé algumas vezes, eles teriam me deixado na antiga escola, mas isso não fazia sentido algum, no fundo. Por mais que tivesse amado estudar lá, meus amigos cresceram, e seguiram seu próprio rumo. Não seria lógico da minha parte dar uma de Peter Pan quando todos os bobões da minha turma já tinham aceitado o desafio.

A corrida para o Vestibular já havia sido iniciada, logo agora, no primeiro ano do Ensino Médio. Vou tentar não pirar com a pressão, ainda mais sem meus melhores amigos do meu lado para me passar cola, ou mandar estudar quando preciso.

"Respire, Camilla." Mandei a mim mesma. Seria idiotice dar para trás e chorar mais ainda agora.

Eles haviam prometido visitar, prometeram convidar uns aos outros para todas as festas. Eles não morreram! Só alguns quilômetros de distância e para quê diabos serve msn, Facebook, Twitter, Formspring, Blogger e e-mail?

"Vai dar tudo certo, segura a onda." Aconselhei a mim mesma, uma última vez antes de voltar a fechar os olhos, e ter pensamentos calmos até dormir.

Afinal, eu não poderia ter olheiras, daqui a três dias seria a primeira vez em oito anos que eu entraria numa sala sem conhecer UM ÚNICO ROSTO. Há 8 anos, eu não sabia o que era voltar a ser uma caloura.



[Continua, se gostaram rs]

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