Eu não vou lamentar isto.


Eu sempre amei a chuva. Aliás, eu nunca entendi por que as pessoas se referiam a dias bonitos como dias de muito Sol. A chuva também tem sua beleza. Sua simplicidade, sua suavidade. Ela vem e parece lavar tudo de sua alma. Acolher todos seus temores. Refrescar e revitalizar sua esperança.
Então se eu estivesse lá fora, encharcada de chuva, talvez me sentisse bem melhor.
Subiu um arrepio por toda minha coluna, eu estava sentada, abraçando minhas pernas em frente a uma grande janela de vidro fechada. O vidro gelava minha pele, passando para mim uma amostra do que estava lá fora, E eu suspirava, tentando contar a chuva (como se esta fosse capaz de me ouvir) o gelo no meu coração, a topor em minha garganta.
-ROOOOOOONC! - ronca meu amigo, Thiago.
São quase três horas da manhã, e Thiago havia bebido demais no Reveillon. Miguel teve que quase carregá-lo até o apartamento. Thiago estava bêbado antes mesmo da Virada. Não conseguia nem fazer a contagem regressiva. Bebeu champanhe como se fosse água. Eu e Miguel cuidamos dele, claro, mas talvez os pais de Thiago ficassem furiosos ao saber que não fazemos muito esforço para ele parar de beber. Achamos que era melhor que ele se divertisse mesmo. Mesmo que o cheiro de vômito no corredor do prédio vá incomodar alguns amanhã.
Miguel bebeu também. Eu bebi. Mas nem metade do que Thiago bebeu. Miguel chegou cheio de fome, e foi fazer a coisa mais avançada que tinha no apartamento, ovo. Dava pra ouvir ele fritando, lá dentro na cozinha.
Suspirei. Desde o que aconteceu, Miguel não me olhava nós olhos.
E o próprio acabara de sair da cozinha, carregando uma bandeja de cream crackers e ovos mexidos.
- Fiz dois. Vem comer também. - disse olhando para o chão.
Mesmo sem ver naquele momento, eu lembrava da cor dos olhos dele, eram lindos. Chocolates, castanhos. Eu nunca fui muito chegada em olhos azuis, para contrariar a maioria das meninas. São frios. Os castanhos parecem mais calorosos, mais receptivos.
Miguel se jogou num sofá e eu me joguei no outro, no lado oposto. Thiago dormia em cima de edredons esticados no chão. O apartamento, que nós três alugamos numa vaquinha, era minúsculo, apenas sala e cozinha. Imundo também, e vazio. Os sofás pareciam um dia ter sido brancos, mas agora todos lhe descreviam como cinzas, e o teto esburacado talvez caísse se os vizinhos de cima pulassem todos ao mesmo tempo. É o que o dinheiro de três adolescentes pode pagar, não nos culpem. Não reclamávamos, valia a pena pela cidade agitada nas festas e as praias perfeitas.
Miguel admirava a televisãozinha desligada. E eu não tirava os olhos de seu rosto tenso, lembrando do que aconteceu naquela festa mais cedo.
Bem na hora dos fogos, enquanto todos gritavam, Miguel me abraçou forte, e eu retribui, depois de dizer 'Feliz 2012' e 'Para você também' deixei escapar 'Foi muita sorte ter te conhecido esse ano. Nada seria a mesma coisa sem você.' Ele sorriu de um jeito lindo e respondeu: 'Teria sim, você teria conhecido o Caio'. Eu fechei a cara. 'Pare de referir a si mesmo como algo que só tenho por causa do Caio! Como se você não fosse nem ao menos ser meu amigo babacão se não fosse por ele! Seu bobo!'. Ele sorriu, um pouco menos entusiasmado: 'Não, Mari, eu realmente não sou só seu amigo por causa disso. Acharia um jeito de te encontrar, mesmo sem o Caio.' Miguel se inclinou e eu não me afastei...
Daí, Thiago atirou champanhe em cima de nós como se fôssemos pilotos de Fórmula 1.
Uma pequena explicação sobre o Caio. Ele está a pelo menos duas cidades de distância. Ele é meu namorado há 8 meses. Há pelo menos 2 meses tento me manter firme na decisão de terminar com ele, mas não consigo, me sinto injusta. Ainda mais estando apaixonada pelo melhor amigo dele. Miguel.
Situação: difícil. Tô sabendo.
- Miguel, por favor...
- O que foi? - disse, se concentrando no biscoito.
- Não me trata assim, por favor... Não aconteceu nada.
- Mas eu queria que acontecesse, este é ponto. Não posso fazer isto. Ele só não está aqui por causa de uma gripe. Não sou um traíra, amizade é a coisa mais importante do mundo para mim.
- Eu sei. - e queria acrescentar que é uma das coisas que te faz tão perfeito. - e eu não sou uma piranha. Não me trate como alguém que fosse pular em cima de você.
- Talvez eu vá pular em cima de você. É disso que tenho medo.
Silêncio constrangedor. Tento banir o fato de ter gostado do que ele disse.
- Talvez eu queira. Eu me odeio por isso, Miguel, desculpe.
- Não vai acontecer nada. - disse ele, sem me olhar nos olhos.
- Eu sei que não. Nem eu vou deixar isso. Você me conhece. Apenas me prometa. Se fosse em outra vida, em outro momento, de outra forma, outros jeitos. Aconteceria, Miguel?
Ele me olhou, e seus olhos castanhos quase me atravessaram a alma.
- Sim.

6 comentários:

  1. Texto leve, gostoso de ler.
    Amar é complicado, ser de um é desumano! Nossos hormônios e emoções sempre querem algo novo!

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  2. Preiro o sol e dias mais quentes.
    passeando pela blogosfera conheci seu blog, ele é lindo e com postagens ótimas. Estou te seguindo, e passarei sempre para comentar. Adoraria tê-la como seguidora tb!
    xoxo
    fashionmaniacbrazil.blogspot.com

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  3. Amo escrever textos e contos do tipo. Lindo o seu!

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  4. Injusto o meu contar como comentário, mas é só porque a vaca da Moon não me passou esse texto antes de postar porque eram, sei lá, três horas da manhã. Você tem que escrever coisas boas assim durante o dia, sua chata. >_<

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  5. Obrigado pela visita, volte sempre!
    E, adorei seu Blog, já estou seguindo!

    http://futeblog-blogmaster.blogspot.com/

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  6. Lembrando que meus contos (a grande maioria) não é baseada em fatos reais, mas não posso negar que me inspiro muuuuuuuuito na minha vida. rs
    Micael, acho que concordo com você, mas não quis botar a menina ficando com o Miguel no final para não cair em piranhice rs Se fosse para continuar esse texto, Mari terminaria com Caio assim que chegasse de viagem, e depois de um tempo, ficaria com Miguel rs
    Liiiiii, a Mia Sodré comentou SEU texto, se você ficar metida por causa disso, te dou na cara u-u

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