Pequena.


Passo as mãos em seus cabelos loiros, de leve, aquelas ondas, entrelançando-se, desenhando formas, moldando seu rosto, nunca deixavam que alguém invadisse seu padrão de formatos com dedos estranhos da raiz as pontas. Ela suspirou pesadamente. Sua cabecinha tão cheia de fantasias, idealizações. Tenta confiança num lado bom que a maioria das pessoas nem tinha. Minha pequena amada, nunca desconfiava dos amigos, nunca julgava alguém sem saber sua versão, seu ponto de vista. Minha criança, como sofria na mão de pessoas que se aproveitavam de seu eterno bom grado e carinho. Ela estava agitada, e eu percebera isso desde da hora que chegou em casa. Não parava de estalar os dedos, um por um, depois um por um. Como eu, minha irmã sempre teve este estranho detalhe, todos os seus ossos, pescoço, dedos e pulsos, estalavam quando ela bem entendesse, as vezes que bem entendesse, e ela sempre estalava quando estava nervosa.
Por mais inocente, e por muitas vezes ingênua demais, minha irmã nunca foi fraca.

Eu sou o mais velho, com uma diferença de cinco anos. Então me lembro bem melhor do que ela, que talvez nem se lembre, da primeira vez que sua ingenuidade a castigou.

Skyler chegou em casa, com uma expressão de espanto. A boquinha rosada as vezes se abria, até que ela se lembrava de fechá-la. Tinha então 4 anos de idade. Sentou-se no sofá, e balançou-se, de frente para trás agitada. Seu rosto pálido petrificado, e seus olhos azuis desfocados. Aliás, seu nome seria "Meredith" ou "Robyn", mas diz meu pai que Skyler nascera com os olhos abertos, e ele teve um vislumbre do céu, que exigiu ser homenageado na menina.

- O que foi, Sky? - perguntou minha mãe.

Skyler nada disse. Meneou a cabeça, e se dirigindo a mim, com então 9 anos, disse:

- Kyle, pode por no canal da Disney? - pediu, sem dar muita importância, apontando o controle remoto na minha mão.

Foi a primeira vez, desde que aprendera a falar, que Skyler me chamara pelo nome. Minha irmã costumava na época me chamar de "Bigger", por ser tão mais alto que ela.

Não aguentei, e tentei, em minha primeira real tarefa de irmão mais velho, perguntar o que acontecera.

Ela suspirou como se fosse confessar um crime, e me fez prometer que não repetiria aquilo para ninguém, nem para a mamãe e o papai. Sky estalou os dedos, um por um, e começou:

- É que, as meninas da rua debaixo disseram que queriam brincar comigo, sabe, aquelas gêmeas? Era só eu ir em casa e pegar minhas bonecas, e voltar. Eu vim aqui, peguei três bonecas. Elas brincaram um pouquinho - ela fez uma careta, o que me fez imaginar se aquelas gêmeas desbocadas haviam tratado minha caçula bem -, mas na hora de ir embora, elas me devolveram só uma. E disseram que as outras duas, eram delas e eu que tinha pego errado! Eu tenho certeza que mamãe comprou as três! Eu não peguei de ninguém!

- Então conta para a mamãe.

- Mas as meninas foram legais, elas me chamaram para brincar... mamãe vai brigar com elas, e elas vão ficar tristes!

- Mas as suas bonecas, Sky!

Ela se agitou.

- Elas só se confundiram, vão devolver... tenho certeza.

A pedido daquele projeto de gente, não contei nada aos nossos pais.


E hoje estamos aqui, no meu quarto de novo, embora dessa vez não seja a mesma casa dos meus pais, quase na mesma posição, a cabecinha dela apoiada no meu colo e eu brincando com seu cabelo. Uns 11 anos depois. Ela tem 15 anos agora, e eu 20. Sei que a maioria dos caras da minha idade não seria tão amigo da irmã mais nova. Mas é que Skyler sempre se virou muito sozinha, sempre muito ingênua, mas nunca foi de chorar muito, nem de guardar rancor. Eu sou uma das três pessoas que conhece seus problemas de perto, quem ela confidencia. As outras duas são suas melhores amigas, a Abby e a Theodora. O que não foi um posto fácil, neste episódio, das bonecas, Sky já conhecia as duas.

Dessa vez não sou bonecas que as gêmeas pegaram. Dessa vez foi a confiança e o carinho, que ela depositou tão gentilmente em pessoas que a adoravam, mas não fariam nem um terço do que ela fez e sempre fará por eles.

Ela sorri, infeliz. "Kyle, deixe de ser mau. Ninguém deve fazer favores pensando em recompensas, em retornos."

Assim, você continua se machucando, irmãzinha. Entenda por favor, as pessoas vão tentar te enganar, vão te usar, vão te prometer coisas que nem por um minuto imaginaram cumprir, as pessoas vão rir de você pelas costas, vão mentir tão bem, e tão esporadicamente, que vão fazer você se sentir culpada pelos erros deles. Eu não quero que você deixe de ter essa alma boa, esse amor pelo próximo, mas por favor, considere que o próximo pode ter uma faca. O mundo infelizmente não é doce e puro como suas intenções, seu coração. Você pode ter aprendido sobre drogas, sexo, religião, crimes, estupros, violência... Continua a menininha que perdeu as bonecas.

Ela me olha cansada, seu olhar profundo, sua pele pálida, as bochechas de boneca. No fundo, ela sabe, sabe quais atitudes fizeram dela a boba de novo.


"Kyle, eu não perco a fé. Vale a pena ser boazinha, eu juro. Vale a pena acreditar no melhor das pessoas e lhes dar uma nova chance. No fim, se acertaram ou erraram, a culpa não será minha. Eu só lhes dei a oportunidade, no fim eu cresço, fortaleço, independente do que venha me derrubar. Eu não desisto."


2 comentários:

  1. Gosteei do seu blog e do texto amoore
    sestou seguindo tá , me segue tb ?

    "Enquanto eu to calada, há bilhões de pensamentos na minha mente."

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  2. Texto um tanto melancólico, mas interessante e bem escrito. Visitarei mais vezes seu blog.

    *Quando puder... seja bem vinda.

    http://jollyroger80s.blogspot.com/

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