"A princesinha do papai."

Era difícil que ela estava mesmo indo embora. As malas grandes e vermelhas sobre o chão branco do quarto quase puro me passavam a sensação de abandono, embora eu soubesse que não era isso; ela estava só seguindo o curso natural da vida que escolhera.
"Preciso começar a me virar sozinha, papai. Preciso saber como cuidar de mim mesma." Eu sabia que era verdade, e que não era por mal. Vinte e dois anos não era uma idade nada ruim para começar a querer ser idependente. Além do mais, o que eu poderia fazer? Colocá-la de castigo?
Sentei no sofá da sala, com o café do lado. Estava passando alguma coisa na televisão, mas eu não prestei atenção.
Lembrei que, quando ela era pequena, ficava rabiscando os papéis, desenhando casas e decorações. "Eu vou morar em uma casa assim, um dia, papai.", dizia, e saia correndo para fazer outro desenho, acrescentar um detalhe, mudar uma porta de lugar. Também gostava muito de matemática, e sempre teve muita facilidade com os cálculos mais difíceis; tirava nota máxima em todas as provas, e os professores já a usavam como exemplo.
Lembrei do seu primeiro namorado, Caio, que não era lá muito bom, mas que parecia fazê-la feliz. Tadinhos, terminaram cedo. Mas ela nem ficou triste, porque tinha prova de geometria no dia seguinte, e precisava estudar. Ele, ao contrário, acabou ficando de recuperação. Fingi tristeza quando ela me contou, mas, internamente, estava me escangalhando de rir. Pobre coitado!
Outros vieram depois, e duraram mais, mas só um foi tão sério que virou noivado, e é com esse que ela está indo morar. Gustavo. Bom rapaz, inteligente, bem sucedido, vinte e cinco anos. Faz tão bem à ela que chega a ser chato; não sei como ainda não fiquei diabético, vendo os dois.
Ele quem a ajudou a ficar menos pior quando minha esposa morreu. Foi o fim de nossas vidas, mas minha filha simplesmente quis parar de viver também. Quase perdeu a faculdade de Arquitetura, e demorou um pouco para recuperar. Sorte que os professores foram compreensivos e ela pôde fazer as provas mais tarde.
Me perdi nas memórias, e não notei quando ela colocou a última peça de roupa dentro da mala. O quarto estava assim agora: quase completamete vazio. Só uns livros de criança nas prateleiras, roupas que não serviam mais, essas coisas. Que ela não levaria consigo para a vida nova, mas que ficariam comigo para a vida velha.
- Já vou, papai. - Falou, e sentou ao meu lado para me dar um abraço. Não chorei por pouco, mas meus olhos ficaram tão úmidos que a minha visão ficou embaçada demais para que eu pudesse ver alguma coisa. Se piscasse, chorava; se não, não via. - Vou sentir sua falta.
- Também, querida. - Foi tudo que a minha garganta conseguiu pronunciar. Era um momento difícil, e eu nunca fui um homem muito carinhoso, ou que gostasse de expor todos os seus sentimentos.
Gustavo colocou tudo no carro, apertou a minha mão e saiu. Ela me deu outro abraço, um beijo no rosto e disse um "eu te amo" baixinho, perto do meu ouvido. Sorri, retribuí a frase e acenei quando o carro partiu.
Sentei de novo no sofá, liguei a televisão e tomei um gole do café. Começou a chover lá fora, e eu me senti estranhamente sozinho. Foi quando comecei a chorar, e só parei quando o telefone tocou, e ela disse do outro lado da linha: "Já estou sentindo sua falta, papai."

She's gotta do what she's gotta do, and I've gotta like it or not. She's got dreams too big for this town, and she needs to give 'em a shot whatever they are. There ain't no room for me in that car, even if she asked me to tag along. God, I gotta be strong... She's waitin' on my blessings before she hits that open road. Baby get ready, get set, don't go.

4 comentários:

  1. Tão bonita que os dedos me coçam: é virídica a história?
    E mesmo que não, continua bonita.
    Beijo!

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  2. Flávio, não é verídica, mas é baseada em algumas das minhas conversas com o meu pai. (:

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  3. Que texto lindo!
    Estou seguindo o seu blog
    http://leituradaestante.blogspot.com/

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  4. Oi flor, lindo o blog! Participa do meu tbm, to seguindo!
    bjbj

    http://ahcuriosaa.blogspot.com/

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