A Vida Lá Fora.

Mamãe está sentada na cama bagunçada, sobre os lençóis e os travesseiros, com uma baita de uma dor nas costas, e um aperto estranho no coração. O computador está sobre as minhas pernas, um pouco torto, porque você não me deixa vê-lo direito, e minhas costas doem.
Papai está deitado no sofá, completamente fora da posição que deveria, com uma perna quase saindo pela janela e a outra normal. Um dos braços está tapando os olhos, porque ele não quer que a luz o atrapalhe, e o outro está quase na mesinha de centro, com um cigarro gasto entre os dedos.
Mamãe está com sono, e já passam das quatro da manhã, mas não tem problema, porque mamãe não precisa acordar cedo para trabalhar no dia seguinte. Mas papai precisa, e eu não sei que horas ele vai resolver deitar aqui do lado. Daqui a pouco é despedido de novo, e a gente vai ficar sem ter o que comer.
A vovó vai vir aqui amanhã para te ver, não é fantástico? Talvez ela fique mais distante daqui para a frente, porque ela está doente. Tem gente que diz que é porque ela já está velha demais, mas ela fica dizendo que não passa de preguiça. "Velhos são preguiçosos", fica repetindo. "Já já melhoro e volto para ver a minha neta. Eu vou ter que ver a minha neta."
Papai acabou de levantar, e parece estar tonto. Não bebeu hoje, pelo menos, então sei que está sóbrio. Ele está vindo para a nossa direção, mas está tirando as roupas no caminho e jogando-as em algum canto do quarto-sala que a gente nunca arruma. Ele está dançando agora, como se soubesse fazer isso direito; ele é um péssimo dançarino, mas diz que vai aprender a fazer isso direito, porque vai ter que dançar com você nos seus quinze anos, na frente de toda a família. Não tem música, mas o papai parece animado demais para se importar com isso.
Mamãe está rindo, porque é uma cena engraçada. Tenho vários vídeos de momentos como esse, e você vai vê-los quando for grandinha, e vai rir do papai bobão que você tem. Mas que te ama mais do que tudo. Mais até do que ama a mim.
Papai cai aqui do meu lado, e fecha os olhos. "Gosto de ouvir os seus dedos sobre a tecla do computador", ele diz. Não está drogado, porque sua voz está normal. Já faz um tempo que ele não põe um pouco de erva nessa casa, para o meu desespero. E eu não vou deixar ele trazer mais, não importa o quão mal eu fique, porque você não vai ter contato com isso. "Ela não vai namorar, você sabe. Eu não vou deixar ela namorar.", ele está dizendo. O sono está forte, pelo visto. Não vai demorar para ficarmos sozinhas, filha.
Mamãe andou pensando em como as coisas estão ultimamente. Papai arrumou um emprego novo, o que é ótimo, porque temos como nos alimentar agora. Mas o apartamento está uma bagunça, e eu estou sentindo saudade da minha erva. Vovó está ficando doente, e o vovô morreu já tem um tempo, então você não vai poder vê-lo. O dinheiro está indo todo para as contas e a comida, e a mamãe mal tem vinte e dois anos e já está grávida. A vida está difícil, e ninguém mais perde tempo dizendo que vai melhorar, porque todo mundo sabe que não vai.
Mas o lado bom é que o papai e a mamãe se amam muito, apesar de brigarmos quase todos os dias. E a gente também te ama muito, e você vai ser uma criança muito feliz. Vamos te mimar, e vamos ser os pais mais babões do mundo. E você vai entender que a vida pode ser uma coisa boa, afinal, porque você vai ser a menininha mais amada do mundo.
E agora a mamãe tem que desligar o computador, porque já são cinco horas, e o sol já está nascendo. E a vovó chega aqui depois do almoço, então eu tenho que estar acordada. Vamos tirar algumas fotos para você ver quando ficar maior, e também vamos fazer uns vídeos do seu pai falando que ela é uma vovó ruim, e que ela não te ama tanto quanto ele; tudo implicância.
Até amanhã, filha. Dorme bem dentro de mim, certa de que nada vai te acontecer, porque eu vou te proteger. E por menos capaz que eu possa aparentar ser, sei bem como quebrar a cara de um ou dois sujeitos que tentarem se aproximar.

Nenhum comentário:

Postar um comentário