Ana e o mar.

(Ana e o mar - Teatro Mágico)

Tocaram o sinos da Igreja. A mais bonita (e única) da Ilha de Marjot, a pequenina cidade cercada de água por todos os lado, onde todos se conheciam.
Margaret, a viúva da cidade, estava casando-se depois de 6 anos de luto com o Seu Juan, o espanhol da cidade. A chuva caía fina, mas o sol aparecia sempre.
Ana foi convidada para o casório, óbvio. A impressão era que todos na cidade foram, mas ela saiu assim que a cerimônia acabou. A Igreja ficava bem do lado do velho farol, numa das suas praias favoritas da ilha, e Ana saiu para ver o mar.
A fascinação que ela tinha por tão poderosa e misteriosa força da natureza era inexplicável. Podia ficar horas ali, apenas olhando-o, contemplando-o. Acalmava-a, desde criança, nunca teve medo dele. Como um grande velho amigo.
Ela arrancou bruscamente os saltos altos que a mãe comprara para a ocasião. Seu vestido era verde claro, como a água do próprio mar em alguns dias de verão. Era caro, para os padrões dela, e mesmo assim, a menina não hesitou em sentar-se na areia com vestido e tudo. Não sentia o tempo passar, e não sabia mesmo dizer que horas eram. Olhou para o céu, turvo, o sol tímido. Talvez fossem quatro da tarde, Ana crescera em seu aberto, e tinha um talento em acertar as horas pelo Sol. Não era exatamente uma ciência, mas.
Com uma onda mais encorpada que a maioria, as águas vieram até seus pés, e deixaram ali uma conchinha branca, cintilante.
- Nossa, ela é linda. - surpreendeu-se Ana, lembrando-se de uma história de infância.
"-Cecília, Ana, por que não vão ao praia e catem conchas bonitas para mim enquanto preparo o almoço? Se forem realmente bonitas, faço um colar com elas. - dizia a mãe das meninas.
Cecília, a mais velha, pegava Ana pela mão e a levava com cuidado a praia. Cecília devia ter uns 10 anos, e Ana, 7. Iam com baldinhos, felizes e saltitantes, catar conchas. Cecília enchia o baldinho, ia de um lado para o outro se agachando, cruzando a praia miúda centenas de vezes. Ana, não. Tinha um jeito especial de achar conchas. Ela apenas se sentava em frente ao mar. Primeiro, por que gostava bem mais de olhá-lo do que de peneirar areia, segundo por que o mar sempre a trazia algo bonito, sem ela pedir ou procurar. Na ocasião vieram três conchas azuis como os olhos de Ana, e lapidadas como jóias. Viraram colar feito pela mãe.
Cecília nunca entendera e dizia que a irmã tinha um esconderijo de conchas, por que ela nunca vira aquelas na vida. Ana pegava as conchas que o mar lhe presenteara, fazia uma mesura tímida ao gigante (mamãe ensinara que falar com animais, ou coisas que não vão responder era coisa de menina maluca), e saía com um sorriso."
Levou a mão ao pescoço, ali ainda estava o colar com as três conchas azuis. Ana pegou a branca cintilante ao seus pés e pos entre os peitos, no sutiã, por ausência de bolsos no vestido fresco.
"Ah, que seja." Pensou com désdem, e se meteu de vestido e tudo no mar, o único lugar que era seu e que parecia entender-lhe como se a conhecesse.
E quando Ana entrou, o mar interrompeu tudo o que estava fazendo. Um tsunami em algum lugar na Ásia se interrompeu, parou de crescer, redemoinhos no Caribe perderam a força, chegou a calmaria em uma tempestade.
Era impossível explicar como ele, um titã, uma força mais antiga que os próprios homens e suas teorias, ele, que viu o mundo emergir de seus domínios, e moldar-se, ele que tinha todo um reino para cuidar, todo poderoso, podia amar tanto uma mortal frágil e delicada como Ana Fiernes. Acontece que ele a amava, e nada era mais importante do que abraçá-la, o desconcentrava, como pouquíssimas coisas eram possíveis. E ele tinha consciência de pequenos obstáculo, ele era eterno, e quantas eternidades vira passar, sabia que mal piscaria, Ana já teria morrido, mas antes disso ela se apaixonaria por outro mortal, ignorando totalmente seu amor. Os mortais a muito perderam a fé nos deuses, marítimos ou não, Ana nem sequer falava com ele, nem passava por sua cabeça que um monte d'água tivesse sentimentos. E sentimentos pertecentes a ela. O mar não era um cara romântico, mas era Ana. Isso mudava tudo.
Ana ficou até ver o pôr-do-sol. Até seu vestido estava menos ruim do que quando o enxarcou. Chegando em casa, perto das 7 da noite, esgueirou-se pela porta, tentando não chamar atenção para si quando...
- Ana, onde você estava, menina? Perdeu uma festa tão animada, Margaret estava tão linda.
- Eu estava na praia, mãe. Mas vi quando Margaret entrou, estava mesmo linda.
- Com o mar, de novo. - bufou seu pai, sentado em sua humilda cadeira de vime.
- Fala como se fosse um dos rapazes da ilha. - riu Ana da ideia, e foi deitar-se.

"Por que que o mar
Não se apaixona por uma lagoa
Por que a gente nunca sabe
De quem vai gostar."
(Ana e o mar - Teatro Mágico)

PS.: Antes de me acharem totalmente (por que eu só sou parcialmente, oras) louca, que tal a música que me inspirou ? rs
http://www.youtube.com/watch?v=9lkYGJOBqGE E se o link não der, Ana e o mar no youtube rs


2 comentários:

  1. Respostas
    1. Sabe o tamanho do meu susto com seu comentário? Eu amo demais esta música, e a inspiração que ela me deu e quase chorei quando senti que o post ia passar batido rs Valeu, Ravi *-*

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