A Arte De Cuidar.


O sol está brilhando do outro lado do horizonte, as ondas estão quebrando na costa, a areia está branca e quente. Que bela vista há de ser essa, que a tão bonita Copacabana oferece! Uma pena que eu não vá aproveitar por muito mais tempo.
Saio da janela ainda enrolada no meu roupão; estou com preguiça de procurar uma roupa qualquer, embora saiba que é necessário, uma vez que não quero que me vejam nua nem mesmo depois de morta.
Talvez soe estranha, para você, a naturalidade com que trato o fim da vida. Mas, uma vez acostumada com o Inferno, tudo que posso esperar é que, para minha surpresa, o Paraíso me aguarde. Não tenho o que temer se encontrar alguma coisa do outro lado, e, no fundo do meu coração, algo me diz que eu não encontrarei.
Pego uma garrafa de água na geladeira do apartamento e a tomo de uma só vez, fazendo pequenas pausas para respirar. O telefone toca uma vez, e entra na secretária.
“Joana, por favor, atenda ao telefone. O Bruno falou que você disse umas coisas estranhas para ele ontem à noite, e depois desapareceu. Estamos todos preocupados. Por favor, atenda ao telefone.” A voz de Isabella soa do outro lado da linha, e eu sorrio para mim mesma. Aqui está ela, cuidando de mim de novo.
— Não se preocupe, amiga. Logo você terá que cuidar apenas de você, pela primeira vez na sua vida. — Eu digo, e saio de perto do aparelho, embora saiba que eu não vou ceder e atender. A dor em sua voz me faz mal.
A banheira está cheia, e a água está morna. Mergulho no espaço escorregadio de mármore, ficando coberta até o pescoço, e sinto uma sensação agradável tomar conta do meu interior. É bom estar em paz comigo mesma, ainda que no dia da minha inevitável morte.
Penso em Isabella de novo, contra a minha vontade. É incontrolável. Pessoas como ela fizeram a minha vida ser tão feliz quanto possível, e a minha gratidão certamente não acaba hoje.
Lembro-me dos bons momentos que passei junto dela, desde o ensino fundamental até agora, depois da faculdade. Todos recheados de risadas, de amizade, de honestidade, de ironia e de apelidos que, apesar da fase adolescente ter acabado, seguiram conosco durante todo esse tempo.
You are my wonderwall.” Frase bonita, música encantadora. Nossa música, é claro. Desde o toque do telefone celular até as cantorias no meio da rua quando éramos um pouco mais novas. Saiu de moda, mas continuou nas nossas gargantas.
Sinto-me triste por ter que lhe abandonar agora, mas, além disso, sinto-me tranquila. Porque sei que, apesar de tudo, Isabella vai superar. E finalmente vai poder parar de cuidar da “Sra. Encrenca”, que faz tudo, menos tomar conta de si mesma. Eu sei: sempre estou dando trabalho.
Meu agradecimento enche o meu peito e transborda nos meus olhos. Obrigada, anja, pela paz de espírito que você me proporcionou. E desculpe-me por arrancar de você (e dos doces Daniel, Maite, Ana Beatriz e Ingrid) toda a atenção necessária para se viver bem. Para ser feliz.
Levanto-me e volto para o roupão, agora estranhamente confortável. O telefone parou de tocar, mas Isabella deixou sete mensagens. Sorrio, mas estou triste. Ela saberia bem disso, se estivesse ao meu lado, como sempre soube. Incrível como era impossível errar, para ela.
Pego algumas fotos que tiramos e que enchem a minha cabeceira, certa de que meus olhos vão ficar úmidos novamente. Sorrio ao ver você com o seu marido, sorrindo felizes, com as crianças sentadas no sofá bem perto. Sinto um aperto no coração por ter tirado dela uma parte do tempo que seria gasta com eles. Agradeço mentalmente outra vez, sorrindo de satisfação.
— Com amigas como você, não importa onde ou como eu morra, a vida sempre vai ter valido à pena. — Falo para as paredes, antes de por tudo no lugar.
Ainda existem algumas coisas que precisam ser feitas, antes da minha vida ser encerrada. E, felizmente, Isabella só interfere nelas indiretamente; seria sufocante ter que me despedir dela mais uma vez.

15 comentários:

  1. Que lindo, bem profundo e subjetivo.... Além de bem escrito! Parabéns! ;D

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  2. Texto Fantástico... Parabens.

    Abraços do Cabeça de Formiga

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    1. Obrigaada, Cabeça de Formiga. UHAEUHAEUAHEU' Adoro esse nomezinho, apesar de não gostar de formigas. ._. Que seja.

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  3. Gostei muito do seu blog! :D

    Parabens!

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    1. Que bom! Espero visitas sempre mais constantes. (: Obrigada por comentar.

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  4. Que triste.
    Mas vc consegue passar para quem lê o sentimento real da personagem.
    Isso é um dom.

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    1. A ideia é que fique cada vez mais triste, para ser bem honesta. UHAEUAHEUAHEU' Obrigada pelo elogio. *-*

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  5. Escrever é bom, é voar com os pensamentos, é ativar a imaginação.

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    1. Concordo plenamente. Fora o alívio, a sensação de liberdade que dá quando alguém se identifica com algo que você escreveu. É maravilhoso. *--*

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  6. Nossa, os seus textos são incríveis, amei o blog!

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    1. Em meu nome e em nome da Li ausente, obrigada. Eu vi que tinha comentado no meu texto também e pensei em só por uma pequena explicação, o blog é de duas meninas, eu, sob Moonday Rain, e minha parceira sob Litch Weg. É que a gente é uma anta em coisa de design, e tinha que dar um jeito de por isto mais óbvio rs

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  7. Angustiante e lindamente triste, embora não me atraia a ideia romântica de alimentar gratidões ante a morte, em vez de, por elas, optar pela raçudice de viver. Beijos e sucesso!

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    1. Muito obrigada pelo comentário, Fernanda! Conforme os demais contos vão forem sendo postados, os motivos pelos quais a personagem escolhe a morte e não a vida vão ficando mais claros e, acredito eu, aceitáveis. UAEHAUEHAUEHAUEH'

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  8. Ao ler parece que estou ao lado da personagem compartilhando seu drama...

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