Coração de Vidro.


O sol do meio-dia brilha mais forte do que nunca, e a praia começa a encher depressa. Famílias felizes, crianças brincando, amigos fazendo nada... O Rio de Janeiro nunca pareceu tão bonito aos meus olhos quanto agora.
Belo dia para se suicidar, Joana. Eu e a minha mania de datas erradas.
Estou de pé, na frente do espelho do pequeno closet, ajeitando o vestido branco quadriculado de rosa e roxo que ele tanto gostava de me ver usando. Calço as sapatilhas cor-de-areia olhando para o meu reflexo. É dessa forma que eu tenho que partir. Da forma que ele ama me ver.
Sento na cama bagunçada que eu ainda não me dei ao trabalho de arrumar, uma vez que existem outras coisas para fazer, e coloco a caixinha vermelha em forma de coração na minha frente. O rádio está ligado em qualquer estação, como ele tinha mania de deixar, e estou esperando a música perfeita começar a tocar.
Crazy how it feels tonight. Crazy how you make it all alright, love… Oh, doce Dave Matthews! Há quanto tempo não ouço uma música dele tocar no rádio... Tão suave, tão belo... Não poderia ser menos perfeito, é claro.
Dói lembrar dele, e é por isso que faço questão de não citar seu nome nem mesmo em meus pensamentos. Dói lembrar de nós, dói lembrar de mim. Simplesmente dói, e eu não sei fazer ficar melhor. Nunca fica melhor, porque ele nunca está aqui para fazer melhorar.
A primeira coisa que vejo ao abrir a caixa é a minha foto favorita: você, eu e um bando de caretas no meio de uma das quase divinas praias de Búzios. Lembro tão perfeitamente desse dia que chega a ser um deja’vu. Chega a passar na minha frente, como um flashback.
Acho que ele não se lembraria, porque estava um pouco bêbado, mas nós nos divertimos muito. E a música que compomos, e você dormindo sobre a minha perna só fez desse o fim de semana mais romântico da minha vida. O único, aliás.
God, I want you so badly, and wonder this: could tomorrow be so wondrous as you, there, sleeping? Não poderia ser melhor para mim, e eu tenho plena certeza disso. E agora desejo poder ter dado à ele a mesma sensação: de que tudo está como deveria estar.
E quanto mais fotos aparecem para mim, e quanto mais a voz ecoa pelas paredes do quarto, e quanto mais eu aperto o meu coração para que ele pare de doer, mais o mundo desaba. Eu desabo. Em queda livre, direto para o chão. Para o fim. Para o meu sonho de nós dois.
Não ouso me perguntar o que deu errado, porque a resposta já está decorada dentro da minha cabeça: eu dei errado. Por medo de arriscar, de perder, de passar a viver um Inferno maior do que aquele ao qual eu estava acostumada. Um Inferno que eu não suportaria. Porque você não estaria lá.
Mas é só isso que me resta, quando eu analiso bem. De toda forma, foi isso que eu consegui. Não tem como voltar atrás, e eu me arrependo. De tudo. Menos de você.
Levanto e vou até a pequena cozinha. Encho duas taças com o mesmo vinho que tomei com ele no nosso segundo encontro, e as levo para o quarto. Aumento o som do rádio e, com uma das taças na mão, danço pelo chão salpicado de fotos. Bebo o líquido carmesim de uma só vez, e começo a girar, como uma louca, com a taça de vidro na minha mão.
— Dança comigo, amor. Dança? — Falo, sem parar de rodar. — É muito chato sem você, sabia? É uma droga, sem você.
Por um segundo, ouço a gargalhada dele. Bebo mais, e volto a girar. Sua presença é tão desagradável quanto imaginária. Eu não quero mais parar de ouvi-lo, não quero ter que abandoná-lo.
Drink some wine 'till we get drunk. It's crazy, I'm thinking, just knowing that the world is round, and here I'm, dancing on the ground. Am I right side up, or upside down? And is this real or am I dreaming?
Paro de rodar e caio no chão, tonta. Rio comigo mesma, e vejo a taça de vinho que repousaria em sua mão se ele estivesse aqui. Mas não está. Nunca esteve. Eu nunca quis que estivesse.
Espero o cômodo voltar ao normal e levanto. Encho a minha taça novamente e olho para a dele, levemente alterada por causa do álcool. Todas as lembranças, a dor, o amor, o carinho... Tudo volta à minha mente, tão rápido quanto à velocidade da luz, e com uma força que quase me derruba.
Toco a taça que não deveria me pertencer com a ponta da minha, e sorrio, triste.
— À nós, amor. — E faço o líquido vermelho e doce rasgar a minha garganta, de uma só vez, antes de cair no chão novamente.
To each other we'll be facing by love. We'll beat back the pain we've found. You know, I mean to tell you all the things I've been thinking deep inside my head, with each moment the more I love you.
Encaro a parede branca. Dois assuntos já foram, faltam dois.

7 comentários:

  1. Pessoal gostaria de agradecer pela visita a meu blog. Gostei muito do de vocês, percebe-se aqui um clima intimista , com doses de melancolia e suavidade. Congratulations! Ótima proposta!

    Flávio Junio Rodrigues
    www.oivalfnocinema.blogspot.com

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  2. Nossa, viajei no seu texto, perfeito. Viajo em textos assim.
    Parabéns, e muito sucesso p vc.

    Siga meu blog tmb. Comente...

    Crônicas e assuntos femininos..., OU NÃO!
    http://cronicaseasssuntosfeminino.blogspot.com/

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  3. vim conhecer seu cantinho e ja estou seguindo quando puder faça uma visitinha no meu e se gostar será um prazer te-la como seguidora beijinhos

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  4. Passei aqui, estou em fase de conhecimento do teu blog, e estou adorando.
    bj

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