Deuses e Rainhas.

Ela simplesmente não conseguia desviar o olhar dele. Trocou as palavras na conversa que levava com a amiga, ele era lindo. Ela não quis olhar para trás, mas se sentiu na obrigação de manter a visão nele o máximo de tempo possível.

-Aquele cara. Ele não é lindo?

A amiga fez uma careta.

-Não.

Impossível, como a outra não pensava o mesmo? Ele parecia um deus, que veio caminhar pela Terra apenas para ostentar sua beleza e originalidade, superior as mentes e aparências dos humanos. Ele andava como um deus andava mesmo. Não arrogante, mas como se houvesse nele uma ponta de dó de cada rosto que cruzava seu olhar, uma pena sincera das pessoas que o rondavam, apenas por não serem como ele.

Ela não sabia nem seu nome, mas isso não mudava nada. Era a segunda vez na vida que o vira, a primeira, na escola, nunca mais se repetira, por mais que (infelizmente) ela nunca tivesse matado uma aula sequer. Não sabia nem ao menos a explicação de por que o menino só estivera na escola uma vez.

E isso também não mudava nada.

O ambiente não era o dele. Usava uma camisa preta, com entalhes de caveiras e guitarras, o cabelo comprido, mal cortado, despenteado, a barba por fazer, a calça detonada. No meio de tanta gente mal vestida, colorida, carregando suas cervejas, gritando e berrando músicas sem sentido e cultura alguma.

Quais eram as chances do deus querer visitar a festa mais vergonhosa do mundo dos meros mortais? Descera de seu lugar logo quando os humanos estavam se fazendo de idiotas e adorando. Ele andava de um lado para o outro, uma ou outra garrafa de vodca na mão, e ela continuava olhando-o.

Era inevitável grudar seus olhos nela. Precisava ir lá falar com ela. Ela o impressionara desde o primeiro dia em que a vira (e único na verdade), tinha algo encantador, hipnotizante, uma beleza sutil como da realeza, uma nobre que sempre foi bela, por toda sua vida, e nem mais se dava conta desse detalhe. Andava como se tivesse tentando conhecer seus humildes súditos. Uma rainha.

Ele pagou uma garrafa de vodca. Bebia, quase sem perceber, como tinha sido nos últimos 3 anos. Nem era maior de idade 3 anos atrás, mas isso não importava. E cada garrafa que subia, e atrapalhava sua visão daquela menina, era um risco. A rua estava cheia demais.

Os cachos acobreados saltitavam atrás dela quando se entusiasmava com a música. Não sabia nem o seu nome, mas já tinha certeza que amava quando ela fazia isso. Ele a observava sorrir para as amigas. Tinha um sorriso lindo e sincero, como se não houvesse outra coisa no mundo a não ser o motivo de se sorrir, o sorriso dela tinha o efeito de uma estrela.

Iluminava uma noite escura.

“Tão diferente de mim.” Pensou ele. “Eu sou ‘recluso’ e assustador.” Imaginou, usando as palavras que já ouvira sobre si mesmo. Uma da psicóloga, outra da coleguinha de sua irmã mais nova.

Mas nada disso, nem as menores chances de dar certo, alterava o quanto ele estava curioso sobre aquela menina, sobre como precisava ouvir sua voz, e saber seu nome. Ele estava atraído pela ruiva feliz anônima, encontrada ao acaso numa festa que ele nem iria a princípio. Ele virou seu último gole, se separou dos poucos amigos, e andou decidido.

-Eu conheço você. Você é do meu colégio. – ele disse, se dando conta de que era o pior a se dizer de primeira.

-Eu te vi no primeiro dia de aula. – respondeu ela, como se não se importasse e lembrasse-se dele vagamente.

~

-Eu conheço você. Você é do meu colégio. – ele disse, confiante, com sua voz tranquila e os movimentos planejados de deus. Como ele estava falando com ela?

-Eu te vi no primeiro dia de aula. – foi tudo que a mente dela pode responder, já que se parasse para pensar, talvez travasse de vez, suas pernas já tremiam.

PSDAMOONDAY.: Acabou o Carnaval cambada, podem voltar a me amar (ou não). Esse tem continuação, embora eu não vá fazer dele uma série. Beijos molhados.

14 comentários:

  1. Acabou, eeeeeeeba \o/
    Interessado na continuação.

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  2. PRECISAMOS TER UMA CONVERSA, DONA MOON. (é a li, logada em outra conta. enfim.)

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    1. véi, que que os leitores pensam quando a gente começa a se comunicar pelos comentários do blog e não pelos nossos facebooks e msns? rs

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  3. Se tem uma coisa que eu adoro é isso:"Ele andava como um deus andava mesmo. Não arrogante, mas como se houvesse nele uma ponta de dó de cada rosto que cruzava seu olhar, uma pena sincera das pessoas que o rondavam, apenas por não serem como ele." Não sei, pra mim demonstra que o escritor tem percepção e mostra um lado diferente daquilo que os leitores tendem a imaginar.
    Gostei do jeito que vc terminou a primeira parte, deixou uma espécie de curiosidade, de 'conta logo' rs...
    .
    Esperando o próximo post!

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  4. Primeira vez aqui no teu blog, e já me encantei com esse conto lindo, lindo mesmo, ainda mais porque terá continuação. Poxa, gostei demais da tua escrita, e virei mais vezes por aqui. See ya *-*

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  5. Adorei o conto, você escreve muito bem! Espero ansiosa pela continuação! (:

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  6. Curti, achei interessante o modo como escreve, sabe nos envolver na narrativa.

    abraço,
    www.todososouvidos.blogspot.com

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  7. Citações... Visual blogueiro legal!

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  8. Você escreve muito bem!!! Meus blog favoritos são os que postam texto ou tutorias. Já estou seguindo aqui e outra hora volto pra ler com mais calma os seus outros textos. Se você puder me faz também uma visita, vou gostam muito :)

    Palavras, pensamentos e sentimentos

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    1. Corrigindo -> Meus blogs favoritos são os que postam textos ou tutorias* :)

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Ah, a Flecha de Eros!!! Como é suprahumano se ferir com ela e como somos carregadas para estados inebriantes! Essa coisa inflamada da paixão! ^^ Gostei muito! Também curiosa a cerca da continuação e como será quando a nossa "Psique" enxergar a humanidade de seu "Eros" e se a amiga fará papel das "irmãs de Psique"!


    ...beijinhos***

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    1. Aaaah essa história! Linda, linda. Triste e linda. Fantástico da sua parte lembrar disso com meu texto, lisonjeada aqui rs. Acho que ele é de uma natureza escura, ele não é recluso a toa. E a menina não é tão boa quanto Psique. Na verdade, é algo como o demônio, e a guardiã do demônio. Muito sinistro, até eu fico ansiosa para escrever isso rs.

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  11. De fato, você conseguiu desenvolver a narrativa com competência, com bom ritmo. Mas ainda precisa evitar tropeços como "lembrasse-se".

    Abraços e sucesso com o blog!

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