Gosto.

Vamos, Sarah. Já basta de atrasos. Apresse-se, pois não hei de inventar outra desculpa tola para a sua professora de balé, sim? — Viviane gritava, sem perder a classe, enquanto pegava a bolsa bege que estava pendurada atrás da porta de madeira. — Deus! O que há de ser tão complicado em um colã, uma sapatilha e uma saia? — Reclamou, dirigindo-se ao quarto da filha.
A pequena estava semi-nua, com a meia calça cor-de-rosa esticada e apertando sua barriga que, para desespero de sua mãe, não era a mais magra quando comparada às outras de Londres. Sua saia estava posta sobre a cama, ainda intacta, e as sapatilhas estavam penduradas, como se fizessem parte da decoração afeminada daquele quarto.
— Posso saber por que diabos a senhorita ainda não está pronta? Temos menos de uma hora para aparecer no estúdio! — Resmungava, levantando a garotinha pelos braços e vestindo-a nos trajes apertados e estranhos, que só faziam incomodar. — Por que é que está chorando, Sarah? O que é, dessa vez?
— Nada, mamãe. — Ela respondeu, fungando e coçando os olhos pequenos e esverdeados. Fez um beicinho, mas engoliu o choro.
— Nada, não, Sarah. Anda, diga o que é. — Viviane disse, ainda alto, enquanto pegava as sapatilhas da garota e um prendedor de cabelo para o coque. — Diga.
— Eu... — Começou, mas as lágrimas voltaram e não a deixaram terminar. Tomou fôlego. — Não quero ir. Não quero ir pro balé, mamãe. Não gosto.
— Não gosta? — A mãe repetiu, incrédula. — Ah! Não gosta! — Jogou as mãos para cima, e a garota se encolheu, segurando o choro. — Faça-me o favor, Sarah! Claro que gosta do balé. Todas as garotas gostam.
— Mas eu, não. — Respondeu, baixinho, e a mãe puxou-lhe os cabelos, prendendo-os em um coque perfeitamente apertado, daqueles de dar dor de cabeça. Ainda resmungava alguma coisa quando terminou.
— Calce as sapatilhas, depressa. O seu estardalhaço nos atrasou ainda mais.
Obediente, Sarah pôs os pequenos sapatinhos de pano que lhe apertavam e ainda deu-se ao trabalho de sorrir. Caminhou até o espelho emoldurado do quartinho que era só seu e não gostou da imagem que estava refletida. Mas fingiu gostar.
— Todas as garotas gostam. — Repetiu, sozinha, enquanto a mãe a berrava novamente. — Eu posso ser uma garota normal, por enquanto. Só por enquanto. — Prometeu-se, e correu para o corredor, com uma falsa satisfação.
Viviane sorriu, feliz, quando a filha saiu de casa em seus trajes mais classudos. Agora, sim, ela se sentia imune ao olhar de desprezo que recebia uma hora ou outra dos demais londrinos.
Amarga é a capacidade adulta de moldar-se às normas sociais. Doce é a habilidade infantil de fingir não se importar.

11 comentários:

  1. ON EM ALGUM LUGAR EM QUE EU POSSA VISUALIZA-LA u_u

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  2. Mulher demorando pra se vestir? Normal rsrsrsrs

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  3. Comentei /\
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    1. Não. (:
      Na boa, se o comentário é tão forçado assim, não precisava fazer. '-'

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  4. Seu texto me faz lembrar essa coisa meio psicológica de projetar nos filhos não só seus próprios desejos não realizados, mas (esse eu acho pior) uma visão generalizada, tirando toda a individualidade do ser humano. A verdade é que isso é tão atual e por mais que se fale sobre o assunto as pessoas continuam reproduzindo esse tipo de comportamento. E o mais cruel é que esses comportamentos são reproduzidos, de forma tão cruel, em seres indefesos que ainda estão em formação de personalidade. Essa menina vai crescer tendo uma auto-imagem tão deturpada, vai tentar se encaixar nos padrões e ainda vai querer agradar a mãe, mesmo que aparentemente. Totalmente coerciva esse mãe.
    .
    Que texto mais real esse, realmente uma pena. E como eu sempre digo, rs, até o próximo post...

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  5. Eu fiquei com dó da menininha.Sempre conviver com essas coisas de ''ser a garota normal'' é um saco, todo mundo tem suas coisas sabe, e eu,particularmente acho que, tipo, se a gente não acha uma coisa legal, não tem que achar só porque as ''menininhas normais'' axam, pq são elas que não tem personalidade.Fiquei mt magoada por vc não ter gostado da fic :(
    babizinha33.blogspot.com

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    1. O texto é da Li, mas a fic fui eu que comentei. AAAAH, não fala isso, por favor, eu odeio quando magoo as pessoas ç_ç
      A fic é legal, o tema é ótimo, e Helena é uma personagem a ser explorado com uma veracidade enorme. Culpe o Jeff, de Mal Intencionado, ele escreveu uns textos sobre Perséfone e eu meio que peguei o estilo dele como referência para quem reescreve mitologia.
      Continua a fic eu vou ler :3

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  6. Eu ODEIO quando os pais querem mandar nos gostos dos filhos. A parte mais rica de seu texto é sem dúvida essa "Eu posso ser uma garota normal, por enquanto. Só por enquanto". Imaginei uma garota muito linda.

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  7. Li esse texto e me senti que nem a garotinha. É horrível quando isso acontece, pais deveriam apoiar e te direcionar por um caminho que você tenha escolha e não o caminho que SÓ eles querem. Perfeito o texto.
    Obrigadinha pela visitinha em meu blog, e tem resenha nova lá!

    Beijos, e um ótimo carnaval.

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  8. Adorei! Obrigado por me seguir. Seguindo

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  9. aqui ta demais, parabéns pelo conteúdo e pela estrutura do site , ta divino
    vim lhe agradecer pela visitinha la no planeta feminino , tem post novo lá , volta lá ?
    ps- fique ligada(o) em breve teremos sorteio *-*
    beijos sucesso!!
    http://planet-female.blogspot.com

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