Guerreiros do amor.

- Seu viado! - berrei com Ramon quando ele derrubou o meu iPhone no chão, fazendo um barulho. Senti meu coração bater na goela. Quando derrubarmos um celular nosso é uma coisa. Quando outras pessoas derrubam seu iPhone, é outra completamente diferente.
Ele riu.
- Não aconteceu nada com ele, Zo, deixe de ser estressada.
Estávamos deitados na minha cama, no meu apartamento, aquela coisa imunda e apertada que minha mãe odiava, e devia ser hora do almoço, por que meu estômago roncava e eu não comia nada desde o fim da tarde do dia anterior. Só bebi, e bebi, e bebi. Estava morrendo de fome.
- E você não pode me chamar de viado, posso te denunciar por homofobia.
- Existem viados não gays. - soltei a fumaça, clara e doce na cara dele. - Viado é quando alguém age como um filho da puta. Você é só meu gayzinho maravilha, viado é mais.
Ele riu, lentamente. Do jeito que sempre fez quando estava 'voando alto', como se não entendesse nem por que estava rindo.
- Ótima explicação, Zo. Eu te amo.
- Nunca mais te trago nada, sempre que fuma, fica parecendo um dos Ursinhos Carinhosos. Anda, me dê isto aqui.
Peguei o cigarro de maconha da mão dele e pus ao lado do meu, encima da cabeceira. Chega daquilo por hoje. Mal tínhamos saído do estado de bêbados, não precisávamos atingir o estado de doidões num período de 24 horas.
- Você é uma chata. - resmungou ele com uma careta, mas não se esforçou a conseguir o cigarro de volta.
- Vem cá, borboletinha rosa, achei que fosse para casa do Craig, sabe? Vocês se agarraram a noite toda... - comecei.
- Me surpreende que você lembre disso. Achei que estive chapada.
- Estava.
- Bem, eu não fui com o Craig, por que ele é um otário, um idiota. Ficamos juntos a noite toda, e ele catou uma menininha para diverti-lo no fim da festa. Não aguento mais as crises de 'eu não sou totalmente gay' dele. Isso não existe. Odeio ele.
- Você não o odeia, vocês tem uma história, só tem que esperar o Craig se tocar de quem ele é. Talvez ele seja até bi. - dei de ombros. No fundo, Craig era mesmo um otário, só não queria que Ramon desistisse de quem ele amava desde os 16 anos de idade por nada.
Mudando de ideia, peguei meu cigarro mais uma vez. Uma última vez, só para conseguir tirar da mente aquele pensamento que eu não estava conseguindo formular.
- Ramon, eu acho isto tão bonito.
- Depois sou eu o Ursinho Carinhoso.
- Cale a boca, falo sério. Acho bonito ser gay. É como uma batalha pelo amor sabe? Tem tanta gente escrota neste mundo, tanta gente que não enxerga além de seu próprio mundo, e vocês aí, lutando pelo direito de se amar. É muito fácil ser hetero.
- Quer que eu te apresente a Yasmine? Ela te achou bonita na última...
- Eu não sou lésbica, idiota. Não é isso que quero dizer. Só digo que, se eu fosse, teria uma causa mais nobre e mais desafiadora a travar pelo amor. Sabe que acredito no amor acima de tudo né? Pois bem, eu estaria na maior batalha por ele. - eu ri. Totalmente desconcentrada do motivo de que por que rir, mas até aquele ponto, vomitava palavras, mas dizia verdades.
- Valeu, Moulin Rouge. Nós não somos tão sofridos assim, Zo. - ele fez uma careta. - Não é tão nobre, nem tão bonito. Só é, sua drogada. E eu ainda posso te apresentar a Yasmine. - disse ele, se enrolando nas cobertas mais uma vez, preguiçoso.
- Vá a merda. Talvez eu esteja exagerando, mas eu lembro que não foi lá muito fácil para você no início. A família de Meredith ainda me odeia.
- E sempre vão te odiar, olha o que você fez!
- Preferia que eu não tivesse feito? - perguntei, desafiando-o.
Ele rolou os olhos.
Aconteceu a 6 anos atrás. Ramon tinha 15, e acabara de descobrir que gostava de meninos. Na verdade, sempre esteve lá, mas ele não aguentava mais ter que viver de fachada. E estava escrito 'fachada' na testa de Meredith Summers, que na época, era namorada de Ramon a 2 anos.
Ramon a amava, e eu sabia disso. Sempre fui melhor amiga desse meu gay-maravilha, mas acontece que não era o amor. Então, Ramon foi terminar com ela, com toda a cerimônia, na casa dela, pedir desculpas e me levou. Até hoje não sei por que ele me levou, mas eu estava lá.
Ramon conversou com ela por pelo menos 2 horas, enquanto eu e os pais de Meredith assistiamos TV na sala, com o melhor clima do planeta, imaginem.
Meredith saiu chorando, e gritando. Gritando que tinha nojo dele, e que não queria vê-lo nunca mais. Os pais foram para cima, e ela não parava de berrar e soluçar.
- ELE É UM BICHA DESPREZÍVEL, PAI.
- O que? - vociferou o ex-sogro. - VOCÊ ENGANOU MINHA FILHA, RAPAZ, VOCÊ É UM NOJO! SUMA DA MINHA CASA!
- Eu amei sua filha, senhor Summers, eu...
- NEM MAIS UMA PALAVRA! SAIA, SAIA! E EU QUE TANTO GOSTAVA DE VOCÊ!
- Pois por que não gosta mais? Ele ainda é o mesmo rapaz. - foi o momento em que eu botei meu nome naquilo.
O senhor Summers me lançou um olhar de "Até tu, Brutus?", e direcionou o que mais tinha a dizer para mim.
- Ora, ele podia até terminar com Meredith, mas é UM GAY, é um ser NOJENTO, DESPREZÍVEL, PECADOR, ELE É UM BICHA ODIOSO, SAIA, RAPAZ EU JÁ MANDEI.
- Vamos, embora Zoey. - sussurrou-me Ramon, me puxando. Mas eu permanecia parada como uma estátua.
- Ramon ainda é o cara que ensinou Espanhol para Meredith, que resgatou o cachorro dela, e o cara que te levou para o hospital quando o senhor teve um infarto!
- Pois eu preferia ter morrido a ser salvo por este BOIOLA.
A única coisa que registrei, foi Ramon me segurando e me levando dali, e minha mão doendo.
- ZOEY, ZOEY! O QUE VOCÊ FEZ? - Ramon berrava.
Ah, eu soquei o Senhor Summers, bem no nariz. No automático. Saímos de lá correndo, claro, enquanto Meredith e a mãe acudiam o pai. Eu me orgulho disso, Ramon depois me confessou que foi foda.
E nossa amizade sobreviveu, e viveu. Um protegendo o outro, sempre.
Eu jamais deixaria alguém machucar meu Ramon. Nunca. E eu iria defendê-lo desse mundo horroroso, sempre. Mesmo que ele achasse que não precisava. Talvez eu não precise ser lésbica, talvez minha maior batalha pelo amor, seja Ramon. Seja o quanto o protejo, e quanto estou disposta a fazer por isso.
- Eu te amo, Ramon. Você não tem noção.
- Cale a boca, Zoey, sua maconheira.

8 comentários:

  1. Não é o tipo de literatura que me atrai! Mas tem coisa boa neste conteúdo!
    Abraço!

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  2. nossa muito bom li alguns e gostei
    prende a atenção.

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  3. Nossa, ficou muuuito bom!!
    Amei ler a discussão! *-*
    Tanto carinho e ódio. kkk
    bjs
    ótimo texto!
    http://oicarolina.wordpress.com/

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  4. Muito bom! Parabéns! AMO MOULIN ROUGE! Acredito também no amor, o amor é uma força poderosa que ninguém pode deter. Eu acredito que podemos amar quem quisermos, seja um cachorro, um homem, um mulher, um irmão, um amigo. Tudo isso é amor. O ódio e a homofobia são irracionais.
    Parabéns por tudo! Vou seguir!

    Comente também:
    http://enricows.blogspot.com/

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  5. Tem um livro do Gilberto Braga chamado 'Anos Rebeldes' (que depois, na época do empeachment do Collor, foi adaptado pra Rede Globo que exibiu como minissérie). Nesse livro o autor compara a homossexualidade a uma travessia de coragem até a pessoa amada. Quando li o que vc escreveu me veio a mente essa parte do livro.
    É bem interessante seu post, pois trata de uma abertura a um tema que há pouco era considerado tabu, além de mostrar os vários posicionamentos em relação a um assunto. Vc apresenta de forma bem realista o preconceito e a compreensão.
    A minha única crítica é em relação aos nomes dos personagens. Nomes estrangeiros soam como se isso acontecesse longe da gente, distante. Mas acho que é influência das nossas leituras, da mídia, do mundo cada vez mais globalizado rs. Isso acontece quando vou dar nome aos meus personagens, sinto que os nomes estrangeiros são mais expressivos e para cada Clara me vem muitas Mary's, Susan's, Brigite's etc.
    .
    Muito bom, parabéns! Até o próximo post.

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    1. Não consigo mesmo usar nomes brasileiros! É um vício. rs Eu sou apaixonada pelos meus personagens, me apego a eles como se fossem filhotinhos, para cada partezinha que escrevo aqui (como escrevi a história de Zoey), tenho uma vida toda formulada. Sei quantos irmãos a Zoey tem e por que quis sair imediatamente da casa dos pais. Tento por o máximo de personalidade e originalidade em cada um deles, e quando os chamo de 'Gabriela' ou 'Eduardo' parece que a personalidade se perde :s
      Além dos nomes americanos me soarem mais bonitos, fiz um texto uma vez sobre uma menina chamada Skyler, e eu podia passar o DIA repetindo esse nome rs.
      Brigada pela dica de 'Anos Rebeldes', vou procurar *:

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  6. Eu passei bastante tempo sem colocar nomes em personagens porque não queria usar nomes brasileiros. Hoje em dia uso nomes brasileiros ou ao menos usados aqui no Brasil. E alguns nomes bem feios, rsrsrsr. Adorei sua estória, ela me emocionou. Ser gay não é tão difícil (pelo menos para mim) e também não é nada fácil. Ontem mesmo meu cunhado me perguntou se eu jogava no outro time, algo assim, e eu respondi, você está querendo perguntar se sou gay? Se for essa a pergunta a resposta é sim, sou gay. Então ele apertou minha mão e disse que não tinha preconceito nenhum em relação a isso. O chato é que eu não fiquei com ninguém na festa. Só mulheres chegaram em mim. Tenso.

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  7. não é o tipo de texto que eu gosto... mas cada um têm seu gosto...

    http://rocknrollpost.blogspot.com/

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