Segunda estrela a direita, e direto até de manhã.

Incrível como estava lendo o mesmo conto mais uma vez. Incrível como odiava os originais shakesperianos e as tragédias gregas. Gostava de histórias para crianças, com reis, rainhas, vilões e mocinhas numa torre. Não cansava delas, e de novo, aquele mesmo conto.
Seus dedos deslizaram pelo papel manchado mais uma vez, roçavam o que ela desejava ser sua própria realidade. Mais por instinto e costume do que por estar lendo, recitou a prece que tão bem conhecia em voz alta.
- Vai voltar para me visitar, Peter?... Claro, Wendy, para ouvir histórias, sobre mim!...
E o sorriso que o conto sempre lhe devolvia se projetou em seus lábios.
- Martha! Vá pegar o meu cobertor! A senhora já lavou meu cobertor, né? Eu não consigo dormir sem ele! Martha, onde você está, diabos?
- Aqui, querido. - respondeu baixo, saindo de seu mundo de maravilhas. Fechou o livro, largando-o encima da poltrona, e foi procurar o cobertor de seu marido.
Herbert tinha uma ideia muito rígida em relação a mulher e seus livros de contos infantis. Achava bobagem, retardadice, perda de tempo. Brigou com ameaças de divórcio quando Martha quis que o quartinho de empregada virasse uma biblioteca. Herbert queria um bar. Só depois que os filhos nasceram, Thiago e Sofia, que Martha se apoiou no argumento de que as crianças precisavam ler, conseguindo assim o espaço dos livros.
Pura mentira, ela precisava daquela biblioteca como um coração precisava de sangue para pulsar.
O cobertor de Herbert estava guardado, onde sempre estava e ele nunca se dava o trabalho de pegar, Martha pegou-o para ele, e começou sua rotina de sono. Colocou Sofia na cama, pediu pela primeira vez que Thiago desligasse o videogame, separou o dinheiro do lanche das crianças para o dia seguinte, lavou a louça, pediu a Thiago mais uma vez que desligasse o videogame, procurou as calças de Herbert para separá-las...
Um bilhete caiu do bolso. "Eu saio depois do almoço, beijinhos doces, Sandra." Numa caligrafia arrojada. Não soube explicar o que sentiu. Se ainda amava Herbert era duvidoso, que ele tinha casos escondidos, era algo que ela já suspeitava. Thiago e Sofia não mereciam nada disso.
Martha apenas respirou. Era naquele mundo injusto, ingrato de sua bondade e amor, que ela vivia. Respirou de novo, recolocou o bilhete no lugar, não queria que ele soubesse que ela havia achado. Tentou se manter indiferente e apenas levar a vida, como vinha fazendo a muito tempo.
Uma alma tão grande, para uma ocupação tão pequena de mera dona-de-casa.
Voltou a sua biblioteca. Trancou a porta, e chorou encolhida na poltrona. Herbert já estava dormindo, e Thiago iria dormir se conseguisse zerar o enésimo jogo. Ninguém notaria a noite toda, se ela dormisse ali mesmo. Notariam só pela manhã, quando o café não estivesse servido. Já ia se levantar e ameaçar deixar Thiago de castigo quando um vulto sombreado e baixinho atravessou a biblioteca, fazendo com que Martha quase caísse da poltrona.
- Quem...?
E o vulto desaparecera, pequenos guizos pareciam tocar por todo o lugar, e Martha estava começando a considerar que enlouquecera. Um feixe de luz pequenino brilhou do lado de fora da janela. Martha limpou os óculos. Não, era apenas a luz do poste da rua.
Ouvira um cochichar, perto o suficiente para estarem na casa, longe demais para estarem no quarto.
- Mas quem? - correu para a janela, fazendo força para abri-la, e quando abriu, o pontinho de luz invadiu o quarto, batendo contra a parede, e caindo em uma velha caixinha de jóias. Martha foi verificar, e qual não foi a surpresa quando em sua caixinha havia agora duas bailarinas douradas. A primeira, sua conhecida estática na pose delicada, a segunda, desajeitada, tentava imita-la sem sucesso. Ao perceber Martha, começou um discurso sobre como era feio bisbilhotar, o que a mulher não entendia nada mais do que guizos e sininhos no lugar de sua voz. A pequena criatura, de asas frágeis e gênio forte, apontava aflita para o vulto, a sombra de um menino, que ao reconhecer Sininho, fugiu pelo teto. Martha não acreditava em seus olhos.
- Não pode ser, meu Senhor...
Algo atravessou a janela, batendo com violência nela e indo parar com uma cambalhota no tapete persa da salinha.
- Que esperteza a minha, Sininho! Imaginem, ela tentou subir pelo telhado! - o menino sorria de orelha a orelha, segurando com as duas mãos o pé de sua sombra.
- Menino, o que você? Peter, Peter Pan? - a fala de Martha lhe faltava.
- Este é o meu nome. - confirmou o menino, procurando em armários e gavetas, revirando tudo, até que achou uma linha e uma agulha. - Agora eu sei costurar minha sombra, não é brilhante? - disse orgulhoso. Separou também um dedal, sem razão aparente, e o guardou no bolso.
Martha sentara ao lado do menino enquanto ele costurava sua sombra aos seus próprios pés, desajeitado. Não ofereceu-se para ajudar, apenas ficara lá, observando, de boca aberta e olhos arregalados. Só podia estar sonhando, adormecera na poltrona, com certeza.
Costurada a sombra, a pequena dourada foi-se juntar ao menino, pairando sobre seus ombros. Peter levantou, pulou duas vezes para conferir a sombra, e riu estrondosamente, orgulhoso de seu trabalho. Foi em direção a janela, e ia saindo, quando olhou para Martha sem entender.
- Você não vem? - chamou.
Martha se arrepiou, aquilo não podia estar acontecendo, não agora, com seus 45 anos, uma vida inteira, faculdade, emprego...
- Me dê um minuto.
Saiu em disparada da biblioteca, com medo de que o sonho tivesse acabado e que quando abrisse aquela porta de novo, estaria tudo do mesmo jeito sem graça que sempre foi.
Deu de cara com Thiago, com os olhos fixos na tela da Tv.
- Filho...
- Tá mãe, já vou desligar. - respondeu o menino quase sem se mover.
- Thiago, você lembra do que a mamãe lia para você antes de comprar o videogame? - tentou ela.
- Livros? - deu de ombros.
- Basta você ter... - suspirou Martha.
- Mãe, do que você tá falando? Está estranha.
Martha abaixou-se, beijou e testa do menino e disse:
- Mamãe te ama. Eu te amo muito.
- Eu sei, mãe. Também te amo. - respondeu, seco.
Martha saiu, e foi ao quarto rosa onde Sofia dormia. Acariciou os cabelos finos da menina de 7 aninhos, abraçadinha ao coelho de pelúcia.
- Sofia... - chamou Martha. Tinha uma esperança em sua filha, pois Sofia era diferente. Sofia era a única luz que Martha tinha nos últimos 7 anos. Ela era especial, sua esperança. Devia ter deixado a menina cair do carrinho quando era bebê, mas não tivera coragem.
- Mamãe? - a menina despertou de leve, entre o sonho e a voz de Martha.
- Sofia, quais são as palavras?
- Fé, confiança e pó mágico. - recitou ela. - Por que?
- Eu te amo muito minha filha.
- Também te amo, mãe.
A mãe, e como era bom ser mãe de Sofia, se deitou em suas palavras. Sofia era essencial na vida dela, sua razão. Mas era igualmente incrível como Martha não se julgava tão necessária na vida da filha.
- Dorme, agora, meu amor.
Sofia se virou e quase imediatamente, já voltara a dormir.
Martha nem olhou para Herbert, e voltou a biblioteca. O menino esperava, balançando-se no tapete.
- Vamos, vamos, vamos? - perguntou impaciente.
Martha pensou em toda sua vida, e depois de todos esses anos, a resposta era uma só.
- Vamos.
O menino peralta sorriu.
- Sininho, o pó mágico. Ela não pode ir assim!
- Assim co...? - começou Martha.
Uma chuva dourada lhe cercou, suas mãos encolheram, as unhas descoloriram, ficaram rosadinhas e roídas, o cabelo tingido pareceu mais leve, e lhe caiu loiro como era naturalmente até seus ombros, as costas não doíam mais, e seus peitos cansados já não existiam. Ela gargalhou.
- Peter, vamos sair daqui! Eu sei o endereço de cabeça! - gritou ela, pulando com toda sua energia, e sua devolvida voz fina de criança. Peter era agora mais alto que ela.
- Sabe mesmo? - desafiou ele.
- Segunda estrela a direita e direto até de manhã! - gritou ela mais uma vez, saltitando e apontando a estrela pela janela.
Peter soltou seu grito, por entusiasmo.
- Vamos Martha, eu preciso de alguém para contar histórias quando eu acabar com o Gancho.
- Eu achei que não viria.
- Depois de esperar todo esse tempo com sua alma intacta? Óbvio que eu viria.

Na manhã seguinte, ninguém soubera explicar por que uma modesta dona-de-casa desapareceria na calada da noite.

2 comentários:

  1. Realmente, um lindo texto. Também achei bastante semelhante com a minha personagem, mas você soube colocar bem melhor que eu todo o cotidiano que a sufocava. No meu texto eu quis citar o marido no fim com a intenção de suprimí-lo e de deixar claro o espaço dele no mundo de Clara.
    O seu texto está um belo misto de realidade e ficção, você retomou uma história conhecida, acrescentou elementos muito bem e ainda por cima encerrou com uma visão geral excelente. Nesse último parágrafo pude imaginar a família, vizinhas e a polícia preocupados em desvendar um caso que só nos leitores sabemos como começa, desenrola e acaba. Adoro ser leitora onisciente. Parabéns!! Ficou mesmo muito bom, rs...
    .
    Até o próximo post.

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  2. Noooossa! Concordo com a Andressa, é realmente um texto lindo. Viajei com ele, com Martha, Peter Pan e Sininho. Você soube contrapor e mesclar realidade e conto de fadas (ficção). Fez meu coração bater mais forte. Sabe qual foi o meu maior medo? Exatamente o medo de Martha, de que, quando ela retornasse ao quarto, a mágica tivesse desaparecido.

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