Asas.


Eis que, em um dado momento daquela vida preta e branca, ela cansou de ficar vendo tudo ir embora, correndo pelos seus dedos como água, sem uma barreira para impedir. Ela simplesmente cansou de se fazer de vítima, de culpar os outros, de não buscar tudo aquilo que deveria ser seu, por mérito ou porque assim quis o destino.
Já bastava. Já era o suficiente. Sem mais cacos, sem mais dor, sem mais lágrimas, sem mais exagero, sem mais tempestades. Ah… Estava farta de tempestades. A chuva lhe era algo tão bonito, tão sereno, tão cheio de paz. Por que esperar do outro lado da janela, quando podia dançar sobre a água? Por que não? Por que pensar tanto a respeito de pequenas coisas que, na verdade, não exigiam nada. Só atos. Só o momento. Só precisavam que fosse instantâneo.
Ela estava tão cansada de ter medo, de decepcionar, de querer que os outros a olhassem de maneira diferente… Estava se transformando em um ovo decorativo: tao bonito e atraente por fora, mas oco por dentro. E por quê? Por status? Por não correr riscos? Pelo quê?
Ela queria mais que tudo se explodisse, que a sua forma se explodisse, que todos os que a julgavam se explodissem também. Ela queria ter razões para provar para si mesma, e não mais para os outros. Ela queria ser seu próprio orgulho, sua razão para seguir em frente. Ela queria brilhar para si mesma, antes de brilhar para todos os demais.
Vestiu todas as suas armaduras, mas guardou suas máscaras. Não precisava mais delas. Não as queria. Não se importava. Pôs toda a sua luz, todos os seus raios de sol, toda a sua coragem e o pouco de determinação que lhe restava em seu “coração descartável”. Parou de jogá-lo fora. Jurou para si mesma que ele seria um só, sem ser de gelo. Seria um só. Derretido, que fosse. Mas sempre o mesmo, com as mesmas pessoas.
Ouviu as trovoadas lá fora, e não se preocupou em colocar sapatos. Só o pijama lhe era mais do que o suficiente. Destrancou as portas, abriu as janelas, tirou toda a proteção de suas torres; todos eram bem-vindos no seu castelo, fosse quando fosse.
E deu seu primeiro passo. Sem nada em suas costas, sem nada em seus olhos, sem nada para lhe proteger. Primeiro passo que poderia fazer com que ela caísse do penhasco, mas que também poderia levá-la para longe dele. E, se lhes é importante, ela nunca se sentiu tão livre.
Não sei bem onde ela está, no momento. Mas, uma vez ou outra, ela vem aqui dar um oi, dizer como as coisas estão indo. Ela está voando, parece. Alto, longe, só. Voando, apenas. Sem previsão para pouso.


(Esse é um dos textos que eu escrevi, olhei bem e falei: "Totalmente diferente do MM. Nada a ver postar lá. Vou deixar quieto." Mas, durante uma conversa realmente afobada com a Moon, passei esse texto pra ela e fui xingada com todos os nomes - acreditem - por não tê-lo publicado aqui. "Maldita! Os melhores textos no MM! A prioridade é lá!" E mais palavrões, como de costume, porque ela me ama e não vive sem mim.
Moon, minha linda, já postei. Posso sair do castigo agora? Haha.)

9 comentários:

  1. Belo texto. Valeu por seguir o conselho da Moon e postar. : )

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  2. Ahh... Se puder, claro, visite o meu?: ) http://daquiprofuturoo.blogspot.com/

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  3. Tem gente que tem muitas coisas externas, mas internamente são vazias, e, esse é o motivos de usarem muitas mascaras para disfarçar a solidão da alma.
    Apareça lá.
    Retribuo sempre.

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  4. A maneira como vc escreveu facilitou tanto a identificação dos leitores(as) com a personagem que parece até, pra quem se encontra nessa situação de querer o que ela quer ("queria brilhar para si mesma, antes de brilhar para todos os demais."), parece que vc apontou uma saída. Algo como, 'vc se identificou com ela, ela conseguiu romper, vc também consegue'. Tá, meu comentário pode passar a impressão de que eu achei o texto com cara de motivacional, mas não é isso. Na verdade achei mais daqueles tipos de texto (e por que não situações reais também?) onde o ser humano/personagem tem um estalo de consciência e percebe que essa é a vida que ele tem e que viver com medo só trará frustração e arrependimento por não ter-se arriscado a mudar.
    Personagem corajosa essa, creio que reflete muitas pessoas, ainda mais pelo final do texto, onde vc humanizou a personagem de um jeito que é como dizer: 'olha, ela faz tudo isso, deu uma passo que muda sua maneira de viver e o que acontece? ué, ela continua vivendo, vem falar comigo às vezes.'Demais. No fim da narrativa captei tanta tranquilidade, que é como vc narrar algo extraordinário que acontece com um ser humano e tratar com uma, como eu posso dizer, uma naturalidade. Mas, fazer o quê? São meros mortais vivendo aqui e ali... rs, sério, demais.
    .
    Um ótimo texto, excelente. Parabéns para as duas: a Litch por ter escrito um texto tão bom de ler e refletir e a Moon por não tê-la deixado escondê-lo dos seus meros leitores. Até o próximo post...

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    1. Caramba, valeu mesmo. *--* Eu to meio sem quer o que responder, pq, sei lá, acho que tu entendeu mais a personagem do que eu mesma. UAHEUHEUAHEUAEHAUEHAUEHU' mas obrigadão. sério. *o*

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  5. Eu gostei bastante! Mesmo!
    Adoro esses textos descritos em conto, com poesia, e narrativa.
    É bem o meu estilo.
    parabéns!


    Já te sigo, pode seguir de volta e dar uma comentada?
    www.luliskd.blogspot.com

    valew

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  6. GOSTI MUITO TEM UMA NARRATIVA EMOCIONATE
    PARABÉNS.

    PODE SEGUIR E COMENTAR MEU BLOG?

    BLOG EUMACLE POESIAS
    HTTP://EUMACLEAMARAL.BLOGSPOT.COM

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  7. Preciso concordar com a Moon, esse texto não deveria ficar guardado. Também preciso dizer que me identifico com ele. Principalmente nesse trecho "E deu seu primeiro passo. Sem nada em suas costas, sem nada em seus olhos, sem nada para lhe proteger. Primeiro passo que poderia fazer com que ela caísse do penhasco, mas que também poderia levá-la para longe dele. E, se lhes é importante, ela nunca se sentiu tão livre". Senti muita força nessas palavras. Muita gente precisa ler textos como este para sentirem coragem de seguir em frente sendo elas mesmas, sentirem orgulho delas, lutarem por elas.

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