Seu nome era Angel e ela teve um ano ruim.

(Where did Jesus go? - The Pretty Reckless)

"Outra" era a palavra mais ouvida no quintal apinhado de crianças.
Ela sorria, pegava o violão, improvisava outra sinfonia que as criancinhas nem desconfiavam ser a cópia mal feita de uma música, e em rimas quebradas, contava uma história.
Contou sobre o cachorro Uli, que gostava de comer sorvete junto com panquecas, e do elefante Enzo que queria voar (não, nada relacionado a um mamute pequenino que vocês possam conhecer), entre outras. Não se preocupava muito em trazer no fim do conta cantado uma lição, gostava mais de inventar os personagens, de fazê-los ganhar vida frente aquelas crianças que tanto gostavam das histórias, do som.
As criancinhas sorriam, riam e ficavam como bobas envolta da adolescente. Era lindo ver o que estava acontecendo ali, estava aproximando aquelas crianças, 'abandonadas' por pais que as deixavam numa creche de classe alta quase 24 horas por dia, trocadas por celulares e contratos. Sem um livro para ler de noite, sem um rádio com música. Ela tinha esperança que o pouco que fazia, de música e história, ajudasse. Ninguém fez isso por ela, quero dizer.
O sinal tocou. As crianças entraram, se despedindo com beijinhos, foram para a classe.
Ela levantou, passou na cantina e pegou um sanduíche natural, pois o violão nas costas. Não gostava muito de ter que voltar para a casa, mas era necessário.
Chegando lá, subiu ao sótão, onde montara ano passado seu refúgio, um quarto a parte de toda a casa, seu mundo. Pegou a guitarra, ligou-a no velho e chiado amplificador, para contar uma história que criança nenhuma deveria ouvir.

"Eu tenho que contar a história de um menino muito fodido. Ele nasceu numa tempestade em dezembro com absolutamente tudo a perder, sem padrinho, sem madrinha. Seu pai sumiu quando ele era apenas um feto, não ficaria lá para arcar com nada.
Sua mãe chorava toda noite, ele nunca soube exatamente o porquê, e o odiava. Ele era o motivo pelo qual o amor da vida dela foi embora.
Na casa da avó, onde cresceu, só havia dois quartos, ele dormia na cama menor, deixando os pés de fora, e dividia o quarto com a mãe. Saía de casa seis horas da manhã, e só voltava meia-noite. Sem levar dinheiro, sem levar outras roupas. A mãe acreditava que ele estava indo para escola, mas ele raramente ia.
Gostava de sair para a rua, e andar nos becos do centro da cidade, andava com os piores tipos de gente que a sociedade pôde criar. E ficou esperto antes de ter pelos pubianos. Ninguém o enganava.
Ele tinha dezessete anos e nunca aprendeu a confiar, nem a sorrir sem sarcasmo.
Nada de bom vinha de graça, e raramente algo de bom aparecia, de qualquer forma.
Beber, fumar, foder. Tudo que um filhinho de papai da vida desejava, e tudo que, se tivesse, desejaria não ter. Ele nunca conheceu outra realidade, então, não achava sua vida assim tão medíocre.
Amou uma única vez, mas ela havia partido.
No carro de um magnata milionário, típico.
Achava que não precisava de nada, nem de ninguém, assim como ninguém precisava dele. Então, vivia apenas por ter que viver antes de morrer.

Mas alguém fez a escolha de adiantar a morte.

- Damon J. Sylver? - chamou um homem gordinho de terno, na esquina de um beco, onde Damon estava jogado, tentando dormir no colo de uma das meninas. O homem o procurara o dia inteiro.
- Eu. - respondeu, olhou o homem de esguelha, só para ter certeza de que não era da polícia, se levantou e ficou frente a ele.
- Não sei como dizer isto, mas a Angel morreu. Há um mês atrás. E o seu pai agora deixou a casa dele em Atlanta para você.
Damon fez uma careta.
- Cara, eu não sei quem é Angel, e como metade dos meninos desse bairro miserável, não sei quem é meu pai. Está com o cara errado, desculpe.
O homem torceu as mãos na alça da maleta.
- Angel era sua irmã mais velha. Ela se matou, com um tiro na cabeça, sem nunca saber que você existia."

"She needed an angel to love
Ans no one sent her an angel
She needed an angel to love her
But no one sent her an angel."
(Where did Jesus go? - The Pretty Reckless)

7 comentários:

  1. sou do
    http://meucarroevermelho.blogspot.com.br/
    já to seguindo aqui, parabens pelo blog!

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  2. Muito bem escrito... e um tanto triste!!!!

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    1. Ando notando que meus textos estão mesmo com um aspecto triste. É uma fase, eles vem naturalmente, refletindo como ando me sentindo, mas como toda fase, espero que passe. (:

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  3. Texto perfeito Parabéns,The Pretty Reckless amooooooooooo adoreiii <3

    Seguindo já

    http://www.thepurpleblood.com/

    https://www.facebook.com/thepurpleblood

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  4. O bom das fases ruins é que elas deixam registros impressionantes. E, mesmo não sabendo como você consegue descrever o trágico de forma tão adorável, eu não posso parar de mergulhar no seu estilo. Você retrata submundos, mundos próprios, vc casa letra e história e seus personagens não são alienáveis, eles são reais, identificáveis. Brilhante como sempre. Você é expert em clímax e conclusão.
    .
    Voltei e, rs, até o próximo post...

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  5. Gostei da música xD. Gosto de seus personagens e gostei da estória. Todos que prometeram mudar, acabar com os problemas, falharam. Não acho que devamos acreditar em alguma coisa.

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