Filantrópica



Em Serra Leoa existe uma guerra entre Estado e revoltosos. (E é essa a deixa para quem acha que assuntos como macro-problemas enchem o saco passar o post.)
Há anos, há anos ninguém por lá sabe o que é paz. Soldados da ONU lá estão. Mas eles compram armas da mesma empresa que fornece armas aos guerrilheiros - e eles sabem disso, óbvio, se sou eu capaz de saber. E mantêm. A empresa pertence aos países capitalistas (alguém já percebeu que os membros permanentes da ONU são justamente os maiores produtores de armas? Até a China e suas arminhas brancas fornece facões barra pesada aos guerrilheiros em Serra Leoa). A empresa lucra, todos lucram, a ONU diz que faz alguma coisa. Todos vocês - cidadões de países lindos e desenvolvidos (considere o Brasil desenvolvido, você não sabe o que é não ter o que comer) ficam 'felizes'.
Serra Leoa continua em guerra. Funciona basicamente assim, um lado contra o outro, ambos comprando da empresa, sei lá, batizemos de empresa do Unicórnio Saltitante Alegre. O Estado compra uma arma simples, como aquelas que vemos nas mãos de assaltantes. Os rebeldes compram a mesma. Daí o Estado quer comprar um fuzil. Os rebeldes compram a mesma. Então o Estado compra um fuzil 2000, adivinha o que os rebeldes encomendam aos Unicórnios Saltitantes Alegres? Isso mesmo. É uma corrida armamentista localizada, com a qual ninguém se importa, só lucram.
Mas vamos esquecer isso. Esqueçam agora!
Enfim, investindo em outro assunto, você sabia como funciona as terras agrícolas lá na terra do Tio Sam? É assim, suponhamos que você tem uma terrinha lá, para plantar feijõezinhos mágicos. Então, o governo pede, imaginem, para que você não produza em 25% da sua terra. É mais ou menos como "Aah, cara, produz aí não, deixa esse quarto quieto, quebra o galho? Mas olha, você não vai sair no preju não, eu vou te pagar o que você ganharia produzindo nesse pedaço, camarada."
E isso não é por que os gringos enlouqueceram. É por que assim, a oferta deste alimento permanece baixa, sob um nível adequado, garantindo que os preços estejam elevados. Garantindo que (digam a palavra que todos vão amar que você diga durante toda sua vida miserável e imunda, pausa para respirar) lucrem.
Produzimos cerca de 7,5 bilhões de quilos de comida. Existem 7 bilhões de pessoas. É mais do que provado que não FALTA comida no nosso planeta, ela é apenas mal distribuída. Eis algo que sua mãe estava um pouco consciente: "Coma menino! Tanta criança passando fome!" Porra, da próxima vez, faz um favor pra Moon, come.
Eles preferem pagar para que você não produza a distribuir o excedente a população faminta.
E o Brasil, claro nosso Brasil, não poderia fazer a mesma coisa, jamais!
Aqui, eles queimam. A Constituição proíbe, claro, mas o que diabos na Constituição é seguido mesmo? E não estou falando de um ou dois casos, quando sobra muito alimento na produção, a oferta será enorme, o preço reduzirá, eles (tremam) não lucrarão. Então eles QUEIMAM o que eles mesmo produziram, garantindo que a oferta seja baixa. Nas sortudas áreas do continente da África onde ALGO é produzido, existe a mesma coisa. É uma prática mais comum do que se pensa. A título de comparação, a Constituição proíbe a venda de bebida alcóolica a menores.
Eu sei que vodca é bom, então a Constituição falhou. As duas situações são semelhantes nesse ponto, virou um crime em que o raro é a punição.
Mas esqueçam isso, claro.
Falando de uma área que gosto muito, medicina, falemos de uma pandemia que todos vocês têm na ponta da língua, e espero que evitem. A AIDS. Estão todos muito calvos de saber que o vírus do HIV é DST, atinge principalmente o continente da África, tudo bem, parabéns.
Existe um país na África, Botsuana talvez, em que 58% da população é soro positiva, e por aquelas bandas, a AIDS é conhecida como SIDA.
Alguém levanta a mão. Esta é fácil. Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
Não. Algo mais original. Lá é conhecida como Síndrome Inventada para Desmoralizar a África. Sim, caros amigos, existem cidadelas inteiras com AIDS, em um país onde idoso tem 40 anos, já que a expectativa de vida não ultrapassa os 35,  onde acreditam que a AIDS não existe.
É tudo invenção daquele nojento povo ocidental. Em muitas tribos acreditasse que o sexo com uma virgem cure a doença. Não que eles chamem a doença de AIDS, mas okay. Pais firmam tratados 'vendendo' sua filha, que acabou de ter a menarca, para um homem que acredita que estará curado do 'mal' deitando-se com a (por que não?) criança.
Se houver algum médico, nesta realidade longínqua, e você for para lá, claramente aidético, ele pode te recomendar um chá de boldo. É gripe, vá descansar rapaz.
Mas não são problemas de vocês, certo?
O sinal bateu, o professor estava animado na explicação, não se importou. Uma menina resmunga, passou metade da aula conversando. "Professor, a aula acabou." - debocha.
- Se você quiser sair, saía, eu não tenho problema nenhum com isso.
A menina levantou-se saindo, alguns meninos riram, acharam graça da 'coragem' dela. Ela está despencando no meu conceito até agora.
Cinco minutos depois, o professor libera a turma. Mas nem toda ela saí. Edimar, que parece ser o único menino ali a não morrer pela opinião das patricinhas, Fernanda, a cantora que não se dá muito bem com as populares, e eu, a novata, permanecemos. Recomeçamos aquela aula para gente.
- Como podem existir, professor, pessoas que queimam quilômetros de plantação se do outro lado da cerca outras morrem de fome? Passam com seus carrões enquanto os outros berram... - respiro, só a ideia me prende todo o peito.
- É como minha mãe me disse um dia desses, "Leandro como estas pessoas conseguem dormir a noite?", eu respondo, elas não tem a uma visão filantrópica como a de vocês, não se importam, pensam apenas no dinheiro. Dormem tranquilas.
- Uma pessoa dessas não tem alma. - seria idiotice minha se eu dissesse que me deu vontade de chorar, e era apenas mais um capítulo de Geografia, cairia na prova, seria lido, passado, como qualquer outro. Mas eu estava a ponto de lágrimas.
Leandro, o professor gordinho e de cabelos cacheados, sorriu triste. Já tinha chegado nessa conclusão a muito tempo.
Conversa vai, conversa vem. Edimar soluciona brilhantemente a questão da reforma agrária, mas comento isto em outra ocasião, Fernanda sugere um trabalho nos temas apresentados naquela aula.
A tom de brincadeira, eu comento:
- O mundo é mesmo horrível. Não entendo como você sabendo de tudo isto ainda não se matou, é de dar vontade de se matar.
- Ah, me matando, eu não mudaria nada. - e nesse ponto eu soube que o professor gordinho já havia pensado nisso.
- Nós não mudaríamos nada nunca, aliás. - suspirei.
- Hmmm, não é que não mudemos nada. Veja, de quarenta alunos, há três aqui perdendo o intervalo com isso, refletindo. Eu conscientizei vocês três, toquei vocês três, isto já basta.
Meus olhos faíscaram. Foi aí que Pandora conseguiu segurar aquele sentimentozinho, né? Esperança?
Quantas pessoas srá que um texto besta da Moon conseguiu conscientizar?
O que você vai fazer para salvar o mundo a partir de agora?

5 comentários:

  1. Olá passando para retribuir a visita . Parabéns pelo blog . já estou seguindo de voltaa !!
    sucesso com o blog (seguidora 139)

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  2. o blog mais clean q visitei até hj... adorei o texto!

    bjkssssssssssss


    http://ibagis.grandemidia.net/

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  3. Primeiro: fantástico o conteúdo do seu blog! Uma delícia esbarrar com um blog sem futilidades extremas, o que é bem difícil por aí.

    Segundo: respondendo à sua pergunta, certamente eu não salvaria o mundo, por falta de poder e competência, mas dentro de um raio menor, sei que posso salvar alguns pequenos mundos. Atualmente estou fazendo um pré-projeto para a Associação de Doação de Medula Óssea, e confesso que existe uma alegria imensa de poder ajudar tantas pessoas que buscam por uma medula para sobreviver.

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  4. Seu estilo 'a la Clarice' está excelente nesse texto, um tapa na cara a cada frase. Realmente, muitos acham que o mundo começa quando a gente nasce, que não existe história, outras vidas que vivem diferente do que essa pessoa é capaz de conhecer, que geopolítica é só uma palavra inútil no dicionário.
    Mas o mundo está aí: posto, colocado pra nós, já vem cheio de problemas que poucos passam a vida tentando entender e resolver. Quer dizer, a gente vê que existe guerra, injustiça, gente com fome, a gente tá cansado de saber. Mas, é um verdadeiro soco no estômago quando a gente entende a lógica disso tudo; porque o que deixa a situação mais sarcástica, dramática ou sei lá qual palavra usar, é entender que tudo não é um grande caos que sucede porque não tem organização mas, pelo contrário, tudo faz sentido, tudo tem um motivo, tudo tem um esquema. E esse esquema é totalmente contraditório, se compararmos com o que a gente aprende sobre moral e ética.
    O que a gente faz? Uma professora do ensino médio me disse e eu concordo que 'ninguém conscientiza ninguém'. Porque, como vc escreveu, eu sei, vc sabe e muita gente sabe como se pega aids, a informação tá colocada. Agora, tem outras que não chegam ou que são maquiadas pra esconder os podres... isso já não é todo mundo que sabe. Tem gente que acha que assimilar conteúdo é ser informado, consciente e esquecem de ser críticos. Há pessoas que pegam as opiniões dos outros como suas próprias porque quem disse aquilo pra ela disse de uma forma tão linda que a convenceu, mesmo sem fazer sentido.
    O povo tá tão explorado, tão alienado, tão focado em si, na competição e no individualismo. É um mal da nossa geração. Tem uma maneira, claro que tem. Mas cobrar do cara faminto de Serra Leoa que não venda seu voto ou que faça qualquer outra coisa por algo pra comer e dar pra família também é complicado. Ou cobrar dele uma revolução quando ele precisa primeiro de alimento, também é dificil. A verdade é que para haver mudanças a gente tem que entender que há interdependência. Que o meu sacrificio pode não gerar nada pra mim, porque talvez eu não esteja vivo pra desfrutar dele, mas que alguém irá ser beneficiado. Isso sim tem que valer a pena.
    Busca no YouTube por 'Trem sujo da Leopoldina' de Solano Trindade (Ele musicado é muito interessante). Também há um livro chamado 'Sobrevivi para contar' de Imaculée Ilibagiza, uma sobrevivente do genocídio etnico em Ruanda, 1994.
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    Adorei mesmo seu post, de verdade é o texto mais interessante e instigante que já li aqui.

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