Prisão Particular.


São sete horas e a escola ainda está vazia. Tem uma galera sentada no refeitório, uma outra perto da quadra, mas não tem ninguém efetivamente. Seu pai para o carro lá fora e ela desce, com a mochila nas costas e aquele estúpido casaco roxo com capuz cheio de pelinhos tapando a blusa gasta com o símbolo do colégio. Queria poder estudar em casa. Anda o que precisa andar, entra na escola de cabeça baixa e põe as coisas na muretinha revestida de piso que é sempre estranhamente mais gelada quando ela se senta. Corre até o banheiro, normalmente vazio, olha o reflexo no espelho e tenta ajeitar o cabelo loiro sempre partido no meio que tem mania de ficar frizado. Sorri, meio torto. "Vai ficar essa droga mesmo.", repete, saindo em seguida.
Ainda não tem ninguém lá. Ninguém pra ela. Pega o celular e abre o bloco de notas. Escreve qualquer bobagem, ri sozinha e se pergunta se alguém sabe que ela não está mandando uma mensagem, mas falando sozinha. Então chega a conclusão de que ninguém se importa, na verdade. Nem devem saber que ela está ali. Deixa o aparelho de lado e senta na tal mureta. Pega um dos tantos livros que guarda em casa e começa a ler. Está no final, e ela já precisa comprar outro. Ter uma carta na manga, caso fique sozinha novamente.
Sente saudades do tempo que as pessoas sabiam muito mais do que simplesmente o seu nome. Sabiam seu celular, seu sobrenome, seus apelidos e suas bobagens; chegavam nela para conversar, fazer nada, contar problemas ou dividir a apostila que química. Pareciam fazer questão da sua presença, um tempo atrás. Pareciam notá-la. E sabia que tal tempo havia ido embora junto com os amores que lhe tiraram; com aquelas três "pessoas mais importantes da vida" que, por obra do acaso, tiveram que seguir caminhos diferentes (e distantes) do dela. O que sobrara? Meia dúzia de colegas de classe que nada mais sabem além do básico; que nada mais vêem além do que ela mostra. Ninguém se despõe a enxergar além da superfície, além da casquinha que a reveste, porque, na verdade, ela nem parece ser assim tão interesante. É a estranha que anda sempre com um livro e com fones de ouvido, se alguém perdeu tempo pensando em como caracterizá-la. Provavelmente não perderam.
Deitada sobre o pátio "sujo" (que nem é assim tão sujo, mas quase todo mundo tem nojo de sentar - quanto mais deitar!) do colégio, com o sol batendo forte no rosto, sente-se tão solitária quanto possível. Pensa no quanto sente falta do abraço do melhor amigo, no quanto quer dividir bobagens com a melhor amiga ou no quanto sente saudade das discussões ateístas sobre a origem da vida que tanto tinha com aquela amiga (antes chamada só de colega, mas que conquistara um baita espaço dentro de seu coração). Pensa que queria poder sair de lá.
O que antes era uma maneira de fugir do caos caseiro e tirar um pouco da preocupação das costas, agora é fonte do caos interior que se instala e, aos poucos, aumenta. Agora é o lugar que ela menos quer estar, se isso quer dizer "estar sozinha", ao mesmo tempo que é onde todas as duas melhores lembranças ficaram guardadas. Se são as pessoas que fazem o lugar ela não tem mais motivos para estar ali; seu lugar desmoronou, e não se deu ao trabalho de balançar antes.
Pergunta-se se faria diferença acreditar em algum Deus. Talvez fosse vítima de um milagre e seus pedidos mais profundos se realizassem. Mas também não confia muito que isso aconteça justamente com ela; talvez Deus tenha planos mais importantes para outra pessoa, antes de ter tempo para pensar em alguma solução para os dela. É muita gente pra pouco Deus; muita prece pra pouco milagre. É mais fácil ganhar na mega-sena.
Enrosca-se no casaco roxo e fecha os olhos. A claridade em seu rosto é pacífica e mais fraca, quase relaxante. Seria o momento perfeito para se teletransportar dali para bem longe. Um dos mundos de seus livros seria ideal; um dos mundos que criara para si mesma seria mais do que perfeito. Esconder-se entre uma linha ou outra, reinventar-se conforme os capítulos se seguiam até terminar a história, até não ter mais o que acrescentar.
Talvez dê sorte e conheça alguém que a faça querer congelar alguns pequenos momentos, algumas cenas. Talvez o resto no ano passe tão ou mais depressa quanto/que a primeira metade. Ou quem sabe as coisas se mantenham nesse mesmo ritmo, e ela se acostume a essa rotina nova que não a agrada. Mas nada vai fazer voltar o tempo que se foi, nada vai mudar os fracassos que a mantém ali, nada vai matar a saudade que cisma em machucar seu coração. Pode até ser que se torne um hábito e que deixe de fazer diferença, mas nunca vai sarar, de fato. Vai ter uma pontinha de dor daqui pra frente, e ela não vai sentir, porque já se acostumou com o incômodo que causa.
Nada lhe dá mais certeza que vai ser eterna prisioneira, e que assim será por opção. Poderia sair de lá, livre e leve, mas quem disse que se lembra? Sua capacidade de adaptação fora afetada com a evolução. Mantinha sua forma de passarinho, mas, em algum momento, haviam lhe cortado as asas.
- Vamos subindo, subindo. O sinal já tocou. - A inspetora a tira do transe e sorri, carinhosa. Mais ri do que sorri, embora ainda pareça acolhedor. - Bora, Litch, levanta desse chão. Cê não tem aula, não?

Um comentário:

  1. cena de filme!
    eu juro que vi rs,e eu me vi na época de escalo tbm,e voce escreve muito bem,os detalhes da estanfa adolescente é uma fase dura,mas engraçada mesmo ;)

    obrigada pelo comentario e volte sempre!bjss
    http://rob-umarosaazul.blogspot.com.br/

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