Sifa e Nyx.

Estou sentada no meu quarto, com aquele meu baú no colo. Lembra-se dele? O que eu disse à você que compraria, e guardaria dentro todas as coisas que aconteceram na minha vida e que, em algum momento, foram especiais. Todas as coisas que eu tinha medo de esquecer, tinha medo de perder, fosse pelo que fosse. Todas as que eu queria lembrar de contar para os meus netos. Sabe qual é, agora? Então. Eu o estava vendo. 
Reli todas as conversas e bilhetes que já troquei e fiz questão de colocar ali. Tudo que um dia me fez rir, me emocionou ou me encantou de alguma forma. Tinha uma conversa sobre encanadores; uma outra falava sobre uns rapazes da sala; havia ainda uma terceira, triste, que me fez voltar alguns meses e lembrar de pessoas que, agora, não fazem mais parte da minha vida. Mas não encontrei nenhuma conversa da gente. Sei que as joguei fora, e, agora, me arrependo. Queria ter uma contigo. Queria ter uma prova de que havia, de fato, alguma coisa que nos unia. Como aquela do seu antigo "namorado" (nunca soube se podia de fato chamá-lo assim) na academia; a garota com cara de homem, que era a melhor amiga dele, e o menino que parecia um macaco (o tal "cara de macaco", como havíamos combinado). Sim. Gostaria de tê-la em mãos. 
Também revi cartas enviadas sem motivos certos, só porque deu vontade de enviar. São, em maioria, engraçadas. Cheias de piadas e de histórias "internas" que ninguém entenderia. Só eu. Lembro que joguei a sua fora, e já faz até bastante tempo. Eram três páginas, ainda sei. Você a leu para mim, no dia do meu aniversário. Fora a única pessoa que eu chamei até a minha casa, e foi com você que eu comemorei, no quarto dos meus pais. Ainda lembro. Mas também não tenho mais nenhuma carta sua. Nem nenhuma carta minha. Nada que lhe envolva, nada que me lembra você. Nem uma palavrinha.
Li cada assinatura nas minhas camisas do colégio. Tem tanta gente que nem sabe mais como eu estou... Não me diz nem mais "oi'". Não me tem adicionada no facebook porque, um dia, me encontrou e pensou "eu já fui uma grande amiga dela, então vou clicar nesse botão e colocá-la na minha lista de conhecidos". Tem um monte de brincadeiras. E é tudo bastante colorido. Mas não tem você. Nem nessa época tem você. E não foi porque eu apaguei; eu não limparia a blusa por causa disso. Simplesmente não tem. Por quê? 
Pensei em todo mundo. Em quem está e em quem não está mais aqui do meu lado. Nos que falam comigo via facebook ou ao vivo, nos que me incluem em seus planos, nos que me chamam de "amiga" ou de apelidos fofos e estranhos que criamos; nos que um dia foram meus protetores e que não cumpriram com tal tarefa, nos que eu chamei de melhor amigo e depois mudei de ideia, nos que saíram da minha vida tão sem querer que eu só notei tarde demais. Ou tarde demais para mim. E pensei em você. 
Separadamente do "todo mundo", eu pensei em você. Porque nunca havíamos sido juntas de todo o resto, não é? Éramos irmãs. Anjas. Era quase uma missão cuidarmos e protegermos uma à outra. Mais que isso: era divertido. Queríamos fazê-lo. Queríamos ter a companhia uma da outra. Queríamos compartilhar segredos e criar histórias. Ou eu queria.
Acho que lhe julguei mal, até mesmo quando foi para defendê-la. Deixei que, nessa brincadeira de proteger, você tapasse meus olhos. "Vem. Pode vir. Não vou deixar você cair." E bum. Eu caí. Feio, lá do alto do penhasco. E que queda, hein? Me machuquei toda, e demorou para sarar. Tenho algumas cicatrizes, se quiser ver, e até alguns hematomas. Por incrível que pareça, ainda é recente. Para mim.
Mas não lhe culpo. Nunca fui perfeita, nunca lhe cuidei todas as vezes que deveria tê-lo feito, nunca lhe impedi de ralar o joelho ou esfolar a palma da mão tentando parar a queda. Pelo contrário; queria que você caísse. "Vai, toma um tombo, vê se aprende a levantar sozinha. E não pense você que vai ficar aí caída no chão, não. Levanta, e levanta agora." 
Foi só outra obra do destino, não é? Uma coisa que eu (nós) não soube(mos) evitar, nem desviar, nem impedir que se quebrasse. Partiu. Perderam-se partes importantes do quebra-cabeça. Eu não fui procurar. Você foi? 
Talvez agora eu veja melhor do que antes. Talvez agora eu entenda que não é uma questão de querer abandonar, mas de não saber mais como deixar preso. Não é uma questão de você ser má, de você querer fazer com que os demais sofram. Você só não sabe como não permitir que isso aconteça com todos. Eu acho. Talvez agora eu saiba melhor como lidar com todo esse peso. 
Estou um pouco cansada de tentar entender tudo que já acabou há tanto tempo, sabe? Estou querendo relaxar de uma vez só. Quero me desprender disso tudo que criamos, disso tudo que eu criei sozinha. E não quero depender de ninguém pra me ajudar a fazê-lo. 
Por isso estou aqui, com o baú em mãos, lembrando de tudo. Forçando-me a não esquecer nem mesmo de você, e de toda a chuva que caiu durante um bom tempo. Estou forçando a minha cabeça a não permitir que você - ou qualquer outro - se percam no espaço-tempo. Mas não de uma maneira negativa, como "Ah, essa aí foi uma vaca. Pula essa foto, a outra é mais legal". E sim como "Passei grandes meses com essa garota. Contei à ela meus segredos, e ela me contou os dela. Vivemos juntas como irmãs, e depois nos separamos. Simplesmente nos separamos". 
Honestamente, acaba aqui. Nessa cama, nesse baú, nesse texto. Acaba agora essa história de odiar o que aconteceu, de culpá-la pelo que aconteceu. Porque, no fundo, não foi culpa de ninguém. 
Não vou lhe dizer que sinto sua falta, porque seria mentira. Realmente seria. Conheci outras "anjas", outras "irmãs", e dedico à elas o meu cuidado e a minha confiança. Carrego com elas os meus segredos, e tenho nelas todo o apoio de que preciso. Não me sobra tempo para sentir sua falta, embora, às vezes, eu me lembre de você. Me lembre de olhar para a sua janela sempre que passo na frente dela, de pensar "já discuti isso com ela uma vez, e rimos à beça", de voltar em momentos que passamos tempos atrás. Me lembre de me lembrar. "Opa! Tem gente faltando aí. Busca que você vai encontrar. Não pode esquecer. Seus netos vão querer saber disso um dia." 
Agora (meio tarde, admito), só quero deixar estar. Quero que você continue sendo feliz com o seu namoro (que você não faz nem ideia de como me alegra ter a certeza que ainda sobrevive, porque sei que faz bem tanto para você quanto para ele), com a sua vida, com as lembranças que você decidir manter sozinha. Quero que você faça o que sempre fez: siga em frente. E quero fazer o mesmo, se der tudo certo.
"Desculpe" não é a palavra certa para terminar o texto. Não quero que me desculpe por nada, e certamente não vou lhe desculpar. Não há motivos para se arrepender de nada que fizemos. Definitivamente não. Então vou fechar com um "Obrigada". O mais sincero que você acreditar que possa vir de mim. Não pelos motivos que eu julgava importantes. Mas por fazer valer à pena os momentos de antes. Por se tornar, para sempre, uma anja com nome, que, mesmo que não esteja ao meu lado me protegendo, o fez quando devia. 
Talvez "para sempre" não englobe apenas o que se manteve conosco em corpo, mas o que não se desfez em memórias. Talvez nem todo "para sempre" acabe sempre. Talvez seja uma daquelas coisas que a gente finge que terminou, mas não terminou exatamente.

"Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é: infinita." (William Blake)

(Tudo que está no texto, queridos meros mortais, realmente aconteceu comigo, não faz nem muito tempo. Isso é uma espécie de desabafo, mas, mais que isso, é a minha maneira de "seguir em frente". Eu preciso escrever, preciso por todos os meus sentimentos em uma página da internet ou uma folha de papel e sentir que, enfim, eles saíram de mim. Se eu não o fizer, fico presa nesses momentos que terminaram. É um dos textos mais diretos e mais verdadeiros que eu já escrevi. Só perde para o "Asas". E eu espero que a pessoa certa seja atingida.)

8 comentários:

  1. Respostas
    1. Acontece quando eu ponho sentimento demais em um texto só, ou desabafo sem medir direito as palavras.

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  2. Super intenso kkkk

    http://pontoecruzbordado.blogspot.com

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  3. Ok, gente. É intenso demais. KKKKKKKKKKKKK Saquei.

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    1. Ainda vai reclamar dos comentários, Li? kkkkkkkk
      Vou comentar só para você achar que é outra pessoa e um comentário útil quando vier ver o blog u_u

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    2. Vacilo! KKKKKKKKKKKK Não reclamei dos comentários. Foi só um comentário sobre os comentários (ã?). É, issaê. KKKKK Achei que fosse comentário novo, mesmo. Buá. ):

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