Borboletas.


"Tec-tec-tec", bate o dedo no teclado duro e gasto da máquina rudimentar do tempo dos seus bisavós. Os pés se enroscam e se cruzam, quase guerrilhando pra ver quem vai ficar na frente de quem, como se fossem realmente cruzar uma linha de chegada; pobres pés. Jamais chegarão a lugar algum. Toma fôlego e o barulho continua, devagar, retardado, ansiando pelo fim da folha para que a máquina faça o seu trabalho e comece o novo parágrafo. Bela cena, esta. Quando ela range e muda, pronta pra começar de novo, como uma borboleta. O cuidado é dobrado, porque não tem tecla pra apagar os erros. Como na vida, tudo que está escrito, certo ou errado, com ou sem pontos, vai ficar assim. Começar de novo seria, ora, mortal. Veja o tamanho do trabalho para escrever até ali.
Oh, caras letras, saiam depressa e saiam corretas. Permitam-me terminar logo, mas deixem que a experiência seja proveitosa e se fixe na minha memória. Contarei aos meus netos o que era uma máquina de escrever, explicarei as sensações de digitar vidas. Sentir-se Deus, Destino e Morte. Sentir-se Poder. Acabe logo com este trabalho, querida escrita, para que eu possa contemplá-lo por completo, desde a marca do carimbo contra a página até o último ponto final, negro e redondo, sem pixels. Tão importante. Ponto de morte. Fim da página. Vamos começar outra vida.
Lá fora, não chove. O Brasil é assim mesmo: quente o ano todo. E, no verão, é quente demais. Sorte dos gaúchos, que tem neve pra eles durante um período. Sorte mais dos nordestinos, que tem as praias todas. Os cariocas, que tem as vistas. Os paulistas, que tem os parques. Sorte dos brasileiros, que tem o Brasil. Várias borboletas, cada uma de cada jeito, com suas vidas e seus pontos, suas palavras e seus pés, começos e mais começos. Porque fins já existem muitos.
O pai grita, irritado pela demora da garota. Ela está gastando a tinta toda naquela baboseira de escrever sobre o mundo. Precisava era aprender matemática, saber bastante física, decorar todas as fórmulas. Seria, pois, uma engenheira de sucesso ao terminar o ensino médio. E essa história de escrever ficaria lá para trás. Morreria junto com o ponto final.
Pobre garota, que vive fora dos seus sonhos, fora dos seus mundos. Que tem que viver para os outros, com os outros. Isola-se, portanto. Vive sozinha, ou quase isso. Que porcaria é a sociedade! Obriga-a a viver na vida dos outros, ao invés deles terem que viver na dela. Seria um mundo zilhões de vezes mais colorido, mais letrado, mais puro... Seria um mundo de borboletas. Que não se devoram, não se destroem, não se atacam. Vivem em bando, voam juntas, colorem o céu. E mudam. E morrem. E recomeçam.
Borboletas sendo pés, sendo dedos, sendo máquinas de escrever. Borboletas sendo palavras e sendo pontos. Borboletas sendo só borboletas. Porque, cedo ou tarde, quando o barulho das teclas acabar, ela precisa voar para algum lugar.

(Apresento-lhes, com certa insegurança, a minha primeira experiência com uma máquina de escrever. Lembro de me sentir tão poderosa enquanto escrevia - naquele tempo eu ainda não havia descoberto que podia criar personagens e bolar uma história; meus textos eram avulsos - e tão irritada quando errava, que achei divertido contar. E meu pai realmente reclamou comigo porque eu tinha acabado com a tinta da máquina certa vez. Foi divertido. E, como diz o texto, ficou fixo na minha memória a sensação de digitar como talvez digite o destino: sem ter como corrigir o erro que foi feito.)

2 comentários:

  1. Muito lindo. Também já tive essa experiência em uma máquina de escrever. É tão diferente de digitar no computador. Como você disse, não se pode errar. Fico imaginando os antigos escritores escrevendo seus romances dessa forma. Um dia ainda quero comprar uma máquina de escrever bem máquina de escrever mesmo. Com ela escreverei cartas a meus amigos.

    Ainda se lembra de mim? Jefferson Reis. Estou com um novo endereço agora: http://narcisoprostituido.blogspot.com.br/

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    1. Quem se esquece de você, Jeff? Haha. Sudade dos seus comentários aqui no blog. Bom vê-lo de novo. *-*

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