Estrela da sorte


"Quando a gente terminar, vai lembrar de mim toda a vez que ver esse cordão, não é?"
Ela não se ofendeu com a menção a possibilidade de terminarem. Não foi grosseria da parte dele. Ela o conhecia bem e sabia que era apenas o pessimismo gritante, a insegurança e as péssimas experiências anteriores aparecendo de vez enquanto. Tudo aquilo estava presente nela também.
"Quando a gente terminar, vou jogá-lo fora." 
Respondeu, sem grande emoção, apenas contando um fato.
Era um fato. Quando ele cansasse dela, e a magoasse tal como fizeram os anteriores, a raiva dela serviria de bloqueio para a dor, então ela puxaria o cordão fino com força, arrebentando-o, e o lançaria para longe, em qualquer direção em que não pudesse mais ser visto. Por que só a visão daquele pingente de estrelinha dourada abriria um rombo no seu peito, quando terminassem.
"Então, toda vez que você ver uma estrela, vai lembrar de mim. Eu serei sua estrela, seu rumo."
E no momento que ele disse isto, ela sabia que estava feito. Todas as estrelas, de todos os céus pertenciam a ele agora, e ela jamais poderia admirá-las sem lembrá-lo mais uma vez. Por que ele era um guloso, não bastava a música Mulher de Fases, o jeito como ele a chamava de 'complicada e perfeitinha' e ela replicava chamando-lhe de 'estrela da sorte', agora ele era dono também das estrelas do céu. 
Como se ela precisasse de algo para lembrar dele. 

Naquela época, quando ele lhe prometera as estrelas, ela não sabia as proporções que ele tomaria. O quanto especial se tornaria. O quanto significaria... Não, ele realmente se mostrou diferente de tudo que ela já tivera. Derrubou todas as apostas macabras de seu pessimismo, uma a uma.
Mas a vida tinha mesmo que sacaneá-la daquela forma?
Sentou-se na varanda, admirando o límpido céu de uma noite quente de verão. Era inverno lá, agora. Será que ele viu a neve que tanto fazia questão? 
Ela suspirou, abraçou as pernas. Queria ele perto dela de novo, para dormirem juntos contando estrelas. 
Quando ele falou do intercâmbio de seis meses, quase um ano antes de ir, estavam no início do namoro. Ela sentiu a dor adiantada, mas seu pessimismo comentou: "Não, isso não é problema seu. Ele vai cansar de você antes, acha mesmo que vai ficar com ele mais de um ano?".
Ele estava errado, e agora, a distância de continentes era problema dela. De olhos perdidos na imensidão do universo, recapitulou tudo aquilo. Como aquele idiota descompromissado a fizera rir, como estava com ela sempre que ela precisava, como parecia ter saído de um filme de comédia romântica.
E como ela teve que reconhecer: perdidamente apaixonada por ele.
As noites frias que ele a consolara faziam falta. Agora as estrelas iluminavam sua noite como ele fazia antes. 
Será que ele tinha pensado nisso ou mera ligação que só ela viu?
- Filha, venha logo. Está tarde, entre e venha antes que janta esfrie.
Ela obedeceu, e com um último pedido as estrelas, sussurrou:
- Queria que estivesse olhando o céu também.

- Okay, okay. Just leave me alone, let me sleep! - implorava ele para a loirinha pentelha de onze anos.
- You are... you are.. VOCÊ É UM CUZÃO. - e fechou a porta.
Surpreendente que ela tenha aprendido uma frase em português só para xingá-lo.
A família que o hospedara o odiava, então ele passava o máximo de tempo que podia fora de casa. Jurava que fora tudo sem querer.
Apagou as luzes e se jogou na cama alienígena, que pertencia a algum americano loirinho fazendo intercâmbio na Austrália. O luar banhou o quarto, deixando uma faixa prateada no chão, entre as cortinas. Com o queixo afundando no travesseiro fofo ele mirou a janela, e viu a lua. Tão linda quanto o sorriso dela.
"Se vou lembrar de você com as estrelas, então que lembra de mim sempre que ver a Lua."
Que saudade da sua pequena, da sua Mulher de Fases. 
- Queria que estivesse olhando o céu também.

2 comentários:

  1. Quer ter um texto seu publicado no Divã?
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  2. Nossa que texto bom e mais que isso, lindo!
    Perfeito! A dor de fazer intercambio, morar na casa dos outros e ser odiado...Vish!
    Era melhor está perto de quem ama do que ficar longe e próximo de quem o odeia...Mas, com céu estrelado, os dois estava sempre perto um do outro.
    A sua visita no EDB foi maravilhosa...Agradeço muito e muito mesmo e você sempre será bem-vinda ao http://escritordebrinquedo.blogspot.com.br/
    e sempre terá um comentário retribuído, no meu mundo louco onde um escritor é um brinquedo!

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