Livre e deixando para trás.


Cinco da manhã. Ela pulou da cama, antes do despertador tocar, antes de clarear, antes do marido empurrá-la. Antes de qualquer ruído. Não havia razão racional pela qual já estivesse de pé tão cedo em um sábado preguiçoso. Nenhuma racional.
No peito o coração batia fora do ritmo. Sem acelerar, sem retardar, apenas fora do comum, como que alertando-a. Pisou no chão frio, enrolou-se no roupão de seda, lavou o rosto. Mirou-se no espelho.
"Mãe, se eu chegar na sua idade como você, estarei muito bem."
Ela sorriu ao lembrar da filha mais velha dizendo-lhe isso. Precisava estar bem, em sua profissão, era importante ter boa aparência. Precisava convencer os clientes a lhe confiarem todo o dinheiro, a investir. Era uma mulher que precisava manter o cabelo arrumado, o rosto maquiado, as roupas estilosas, sua vida profissional fora totalmente tragada pela cobrança da beleza. Tentava manter isto longe do resto.
E de sua filha. Muitas vezes pedia para que vestisse o casaco mais bonito, que preferisse um vestido a calça rasgada, teimava com a menina de que ela tinha que estar bem arrumada. Mas nunca confessou-lhe o orgulho que sentia toda vez que a adolescente bateu o pé e defendeu seu estilo, seu conforto. Sua filha recusava-se tragar.
Sentia falta até das discussões. Empurrou devagar o porta do antigo quarto da menina. Azul, grafitado de preto, o armário rabiscado, trechos de música por todos os lados. Papéis de textos antigos, de desenhos rascunhados, alguns livros. As fotos que cobriam toda uma parede, as fotos que mostravam a adolescente ruiva sorrindo ao lado de uma turma de amigos, todas elas foram guardadas numa caixa, depois na mala e levadas junto com sua filha. Era para ela lembrar dos amigos, claro. Mas esquecera do que deixaria para a mãe lembrar-se dela. Haviam sobrado só as fotos da criança gordinha, e com o cabelo loiro pré-tintura.
Sentou-se na cama vazia. Leu alguns trechos rabiscados pela porta do armário.
"Hey mom, I wrote you some soft songs
And tell dad I'm just fine
We had to choose
We made our moves
And now we got to go."
Ela tinha deixado dicas, era parte de sua alma que ninguém nunca poderia ter mudado. A mãe suspirou. Sempre soubera, mas preferira adiar, fingir que era só ilusão, uma fase. Fazia agora 3 anos que sua filha partira, para abrir as asas, para morar sozinha. Já podia ser chamada de 'adulta', que estranho.
Mas a liberdade de seu espírito cobraria mais um nível hoje.
O telefone tocou, eram seis da manhã.
- Patrícia, eles sumiram. - não havia urgência do outro lado da linha. Apenas lamento.
E foi com lamento dobrado que a mulher respondeu à outra mãe no telefone:
- Eu sei. Nós sabíamos.

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