Oito.

Tomás era uma criança, e, como todas as crianças, odiava dias chuvosos.
Deitado sobre a rede bordada que balançava suave junto com a brisa, ele mantinha os tornozelos cruzados e as mãos escondidas atrás da cabeça. Os olhos estavam fechados para que pudesse imaginar um céu azul, embora fosse difícil porque sentia as finas gotas da chuva respingarem em seu rosto e não havia quase nenhuma luz lá fora. Isso porque ainda eram duas horas da tarde. 
Estava pensando.
Com apenas oito anos, era o que as professoras chamam de "aluno exemplar", os pais chamam de "anjinho" e as terapeutas chamam de "perfeitamente comum". Era como a maioria das pessoas: pele branca, cabelos e olhos acastanhados, unhas bem cortadas, bochechas rosadas e uma voz gentil. Tirava boas notas, fazia a lição de casa, não deixava nenhuma bagunça no chão do quarto, arrumava a coleção de carrinhos todas as vezes que acabava de brincar com ela e ainda cuidava muito bem da irmã recém-nascida. Era, de fato, uma criança que se podia chamar perfeita, se isso não fosse um pouco inferior aos adjetivos que ele merecia. Tudo isso com (vejam bem) apenas oito anos.
Mas, escondida sobre a sua infância louvável, havia uma vozinha. Sim, uma vozinha. Era aguda e infeliz, que dizia à ele que as coisas estavam erradas e precisavam ser mudadas. "O mundo está coberto de pessoas más", ecoava a voz, experiente que só ela, e ele ouvia. "Nunca confie em ninguém, Tomás. O mundo é cinza. Cinza, eu disse. As pessoas não procuram umas pelas outras se não houver um interesse escondido." E, conforme a voz falava, tão certa do que estava dizendo, Tomás ouvia e acreditava.  Com apenas oito anos, ele tinha uma vozinha que o ajudava a enxergar os erros do mundo.
E, com apenas oito anos, Tomás criava em si a sensação de que, se alguém o havia concedido aquela voz, era uma bênção. Talvez Deus o tivesse escolhido para ser um grande salvador, alguém que ajudaria as pessoas e nunca, nunca, nunca cederia à maldade e à ganância do mundo. Com apenas oito anos, ele sabia que era uma espécie de Escolhido. Era isso que aquela vozinha o dizia. Que o mundo era mau e que as coisas precisavam mudar. E ele, com seus oito anos e sua imaginação fértil, aceitava a ideia de que era ele quem deveria mudá-las.
Deitado sobre a rede que balançava com a brisa, Tomás pensava, como qualquer outra criança comum, sobre o seu futuro. Nos seus oitos anos de vida, não havia visto muita coisa e nem sabia muito do mundo lá fora (a não ser pelo que a voz lhe contava e pelo que as pessoas grandes falavam), mas tinha planos para a sua vida. Faria algo grande quando pudesse. Algo que mudaria o olhar dos outros. Não se encaixaria nos padrões que impusessem. Seria como um super-herói, pronto para livrar as pessoas daquele lugar cruel e cheio de maldades em que viviam. Seria a primeira pessoa que conseguiria a paz de verdade, e a espalharia em todos os cantos porque egoísmo não fazia parte dos seus planos, nem nunca faria.
Tomás era uma criança de oito anos, mas tinha um coração que valia por oitocentos. Tinha ideias e mais ideias para o futuro. As memorizava. Imaginava como seria quando ele as puzesse em prática e não conseguia deixar de sorrir para si mesmo. Tinha tempo. Muito, muito tempo. O futuro era um ponto pequeno no fim de uma estrada gigantesca que o levaria a muitos lugares e fazia muitas curvas; ele mal podia vê-lo. 
Não sabia, entretanto, que o futuro há muito já o engolira.

(Série em oito capítulos, contando oito fases da vida de Tomás, minha nova paixãozinha literária.)

Um comentário:

  1. Que lindo...essa criatura..esse ser... e essa vozinha para a construção da identidade desse menino...um caráter primordial...Só li essa parte e espero sempre voltar para ler tudo e muito mais...

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