Ponto de vista.

O mercado estava cheio e as filas eram sempre muito maiores que a paciência de Carolina. Talvez fosse o excesso de vozes ou a música ambiente ruim, talvez fosse só a chuva torrencial lá fora, ou quem sabe era a raiva acumulada da necessidade de tomar café todos os dias e ter, vez ou outra, que ir até aquele lugar lotado de produtos que não a interessavam para comprar um pacote de pó.
Indiferente ao motivo que a irritava, ali estava ela: parada em uma fila, com cerca de doze ou treze pessoas à sua frente, todas lotadas de produtos, usando a calça jeans usual e os tênis sujos de terra e poeira, além da blusa preta com o nome de uma banda antiga qualquer. O cabelo escuro caía sobre os ombos, embaraçado e um pouco mais bagunçado do que o necessário, e os óculos de armação vermelha estavam pendendo no seu nariz, fora do lugar adequado. Ela não se importou em ajeitar. Em vez disso, roía a unha outrora longa do mindinho.
A moça à sua frente desistiu de esperar. Expirou pesadamente, largou a cestinha colorida em um canto e, xingando um palavrão, mandou todos naquele ambiente à merda e se retirou. Carolina ficou tentada à dar-lhe um abraço e dizer "eu entendo, minha amiga, eu entendo", mas guardou para si o pensamento e a simpatia, evitando um comentário grosseiro ou, mais provavelmente, um "vá se foder" merecido. Ao invés disso, tentou empurrar a cesta com o pé e, numa soma ao dia já emburrado, perdeu o equilíbrio e cambaleou para trás. O calcanhar atingiu em cheio o ferro do carrinho de compras branco e lotado que aguardava atrás dela e derrubou um plástico cheio de panos coloridos para se usar na pia.
- Opa. - Ela virou-se para trás e encheu a boca para pedir desculpas, mas perdeu a fala. O homem que abaixara para pegar o objeto estava levantando e a sua beleza a desorientou. Os cabelos cacheados caíam sobre os olhos negros como uma cortina macia, a blusa azul e lisa marcava os braços fortes e combinava com o jeans e os tênis brancos perfeitamente limpos.
Por um segundo, ela sentiu vergonha da roupa que usava.
Ele esboçou um sorriso de quem não se importou com o que aconteceu e, inclinando-se sobre o carrinho, perguntou, com a voz grossa:
- Tudo bem aí?
- Aham. - Ela gemeu. - Tenho que parar de beber nas quartas. - Tentou soar engraçada e esperou uma risada, mas ele franziu o cenho, confuso. - Brincadeira.
O sorriso veio de novo.
Ela virou pra frente, lembrando de súbito o quão desarrumada estava. E xingou-se por falar que tinha bebido, porque o estilo realmente remetia à uma mulher de ressaca. Disfarçadamente, levou a mão até os fios de cabelo mais altos e os abaixou. Passou a língua sobre os dentes, tossiu, puxou a blusa mais para baixo e a calça mais para cima. Tudo isso aos poucos, tentando não chamar atenção. Abraçou o pacote de café e deu um passo para frente. Olhou o relógio, a chuva lá fora, as unhas curtas, as chaves presas no dedo indicador.
Nada era suficiente agora que sabia que ele estava ali atrás.
Cogitou puxar assunto, falar sobre a marca do pano de pia, quem sabe comentar que o pé estava doendo um pouco. Pedir pra ele guardar o lugar na fila enquanto ela ia buscar uma coisa que esquecera, talvez? Ele parecia o tipo simpático que diria sim e ficaria por isso mesmo. Se quisesse puxar assunto, talvez já pudesse tê-lo feito. Não o fez. Ela não devia fazer, também.
Cruzou os braços e bufou.
Ou, quem sabe, devia. Só pra ver no que dava. Qual era a chance de cruzar com ele de novo, afinal de contas? Deu mais um passo à frente. Ele era legal. Ela podia sentir que ele era. E usava roupas que combinavam, talvez ganhasse bem. Talvez fosse por isso que o carrinho dele estava cheio e o perfume dele entrava pelo nariz dela: porque ele era legal e rico. Uma oportunidade única na vida.
Mas e se ela estivesse errada? Ele podia ser um imbecil. Ele tinha cara de quem era o tipo que leva pra cama e vai embora de manhã cedinho. Ou quem sabe aquele estilo todo e o fato dele não puxar assunto fosse a prova de que ele era gay. Sim, ele bem podia torcer para o outro time. E quem era ela pra julgar? Ou o carrinho podia estar cheio daquele jeito porque ele era casado e precisava fazer as compras mensais.
Gay e já casado com um outro homem versus hétero imbecil. 
Ela tinha sorte por ele não ter puxado assunto. Não é?
Enquanto debatia internamente consigo mesma, não notou que a fila diminuíra e, quando deu por si, já era a sua vez de passar o pó de café no caixa. Passou. Deu o dinheiro à mulher emburrada e gorducha que estava sentada naquele banco desconfortável e esboçou um sorriso. Olhou para trás disfarçando o máximo que podia e notou que ele não estava mais lá.
Virou o corpo. Diabos, onde ele tinha ido parar?
Talvez tivesse desistido. Talvez o marido tivesse aparecido e mandado ele trocar de fila. Talvez notara que comprar tudo aquilo não era necessário, uma vez que era um comedor desalmado. Talvez tenha ido procurar preços melhores e companhias mais arrumadas que não derrubem o pacote de pano de pia.
Carolina reclamou. Enfiou o pó de café em um saco plástico com o nome do mercado, pegou o troco da mão da caixa emburrada de um jeito feroz e, à passos largos e pesados, saiu do mercado. Encarou a chuva sem se preocupar em ficar molhada, porque aquele dia já estava ruim, de qualquer jeito. Atravessou, subiu a rua, girou a chave no portão e entrou em casa. Colocou as compras na pia, pegou a cafeteira e preparou a bebida quente. Enquanto a máquina fazia todo o trabalho, foi até o computador ligado, abriu o Facebook e digitou: "Rejeitada por um provável gay ex-comedor já casado em pleno supermercado só porque meu all star estava sujo e eu derrubei um pacote de panos. Tentando entender o que leva uma pessoa à ser tão superficial."
Voltou à cozinha, colocou o café na xícara colorida e tomou um gole enquanto ouvia o barulho das notificações do Facebook criar uma sintionia irritante, satisfeita e ciente de que, no fundo, ninguém se importaria se ela estivesse sendo exagerada. A verdade estava ali. Não era problema dela a incapacidade alheia de advinhá-la.

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